A Máquina de lavar assassina, ou não

Há vasilhas que avisam que a água ferveu com um apito. O que é muito útil aos que esquecem que botaram água pra ferver. Eu, por exemplo. Esqueço sempre, mas minha vasilha, sem apito, me avisa. Pelo cheiro. Quer dizer, cheiro é bondade minha. Pela catinga. Quando a água ferve até secar, a vasilha continua a ser aquecida, num grau certo pra fervura, mas sem nada pra ferver, a vasilha dana-se a feder, com uma inhaca de robô pegando fogo.

Aí corro à cozinha e boto novamente a água pra ferver. Nesta segunda empreitada, geralmente não me esqueço. Temo que até o final da peste a vasilha evapore-se feito a água que ponho nela. Se alguém de instituto de pesquisa me ligar e pedir meus dados pessoais, no local profissão, estou tentado a escrever “Prendas domésticas”, ou “Do lar”. Isto porque o corona me obriga a labutar mais nos afazeres de casa do que em escrever.

Lavar roupa, por exemplo. Só agora passei a entender a música de Luiz Melodia, aquela do “Lavar roupa todo dia/que agonia”. Se bem que, da música, só entendi até este trecho. Mas quase tergiverso. Não chega a ser exatamente uma agonia, porque o trabalho pesado fica com a máquina de lavar. Aliás, a minha é de lavar e de dançar. Outro dia meti os panos nela, liguei, e vim pro computador cuidar dos afazeres.

Nesse dia a bicha tava meio barulhenta. Dava umas paradinhas, feito Pelé quando batia pênaltis. De repente, irrompia numa barulheira de fazer inveja a maracatu do baque virado, me fazendo interromper a escrita. Dessa feita foi barulho demais. Quando me viro pra levantar e ir até à máquina, ela já vinha a mim. Já estava na porta da cozinha, e no maior remelexo. Só não corri porque não dava tempo de ir buscar a máscara pra não ser contaminado pela goitana do vírus.

Caminhei devagar até a máquina, coloquei, meio cismado, as mãos nelas, e a recoloquei no lugar de onde nunca deveria ter saído. Até anotei aqui, pra escrever uma historinha com o tema A Revolta das Máquinas. Inclusive memorizei a marca da máquina. Pra uma eventualidade. Vai que ela me agride, ligo pra polícia, pra denunciar violência doméstica, e não sei dizer o nome da agressora. Talvez tenha se irritado comigo porque da primeira vez que lavei roupa nela, troquei os buracos dos ingredientes.  Pus amaciante no buraco do sabão em pó e vice-versa. Fosse um bicho humano, poderia me acusar de erro médico. Estes são tempos de descobertas e experiências.

(crônica publicada no Jornal do Commercio, em agosto de 2020, e que integra a coletânea Uma Mulher de Escafandro no Supermercado – Crônicas Pandêmicas, a ser publicado pela Editora Bagaço, do Recife)

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