André Abujamra interpreta sua playlist

Os Mulheres Negras, formado por André Abujamra Maurício Pereira, lançou apenas dois álbuns, Música e Ciência (1988) e Música Serve Pra Isso (1990). Por trás da galhofa, do bom humor, Abujamra e Pereira assinalam para a música que a globalização estava levando a ser criada. A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fragmentava-se em vários países, e a música do Leste da Europa virou tendência. Logo a música da África ou do Oriente Médio tornaram-se mais acessível. A aldeia global tornava-se realidade. Esta guinada sonora na órbita do planeta está mais explícita no grupo Karnak, que Abujamra formou depois de Os Mulheres Negras.

 Os Mulheres Negras zoavam, com uma maioria de canções compostas por André Abujamra e Marcelo Pereira. Mas perpetrou versões nada ortodoxas de Samba do Avião (Tom Jobim), de Sub (Yellow Submarine, Lennon & McCartney), Summertime (irmãos Gershwin), ou Eu Só Quero Um Xodó (Dominguinhos/Anastácia), esta última,numa versão eletropunk, Kraftwerk sem coordenação motora. Ótima.

Depois peripécias mil, André Abujamra  chegou para animar a festa com Duzoutruz Volume 1. O título já entrega. Um álbum de covers, ou melhor. De regravações de canções já gravadas. A coisa do compositor que também canta acabou com as regravações. Até meados dos anos 70, se uma música fazia sucesso, recebia mil regravações, todo mundo queria pegar uma carona na música da hora.

Abujamra retoma a prática antiga, regrava uma espécie de play-list com canções que estão entre suas favoritas. Um disco que começou logo depois que Abujamra lançou Emoidoná – Alma de Fogo, feito durante  a fase mais pesada da pandemia. Um vídeo  de Saiba, de Arnaldo Antunes (álbum homônimo, 2004), postado no Instagram, foi tão bem curtido, que André Abujamra se sentiu incentivado a gravar músicas de terceiros, o que até então não havia feito.

Fez uma lista de canções de que gostava, e selecionou  15 delas. Um repertório que prima pela abrangência, mesclando canções manjadas com algumas menos conhecidas. Refazenda (Gilberto Gil) e Beat Acelerado (Yann/Vicente França/Alec), e ainda Nos Lençóis Deste Reggae (Christian Oyens/Zelia Duncan), e Oração ao Tempo (Caetano Veloso), hits de época e naipes diferentes.  Béradêro (Chico Cesar), Mulher Segundo Meu Pai (Itamar Assumpção), Lágrimas de Diamantes (Moska), Miséria S.A (Pedro Luis) Gentileza Gera Gentileza (Leoni), Nuvens (Marisa Brito), Coração Tranquilo (Walter Franco), Lenda do Pêssego (Moraes Moreira/Jorge Mautner), A Paz É Inútil Para Nós (Paulo Miklos), Uh Uh Uh, La La La, Lé Lé! (John Ulhoa).

 Uma colcha de retalhos multicolorida, e que tem seus matizes acentuados pela interpretação e arranjos de André Abujamra, que toca todos os instrumentos, assina a mixagem (a masterização é de Sergio Soffiatti). Um trabalho conforme as idiossincrasias de Abujamra, que nunca se pautou pelo estabelecido. Béradêro, originalmente um aboio, passa a ser um bendito cool (bendito, o canto religioso do interior do Nordeste). Beat Acelerado, hit da “niu uiêve”, em 1985, com o Metrô, ganha uma levada de house. Em Refazenda há mais reverência do que se espera num disco de Abujamra, Saiba difere do original pelo clima lúdico do arranjo. Duzoutroz Volume 1 não é o disco que mudará sua vida, mas é divertido. Taí uma coisa de que estamos precisados: diversão e arte, ou com arte.

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