Um objeto não identificado no tropicalismo

Durante a revolução estudantil de maio de 1968, na França, entre os vários grafites que se viam nos muros de Paris, um dos mais populares dizia: “Il est interdit d’interdire”, ou “É proibido proibir”. Tão popular que se espalhou pelo mundo, e passou a ser usado na imprensa, e na publicidade brasileiras. O produtor e empresário da maioria dos artistas do grupo tropicalista, Guilherme Araújo, sugeriu que Caetano Veloso escrevesse uma canção tendo a frase como mote. Ele resistiu à sugestão, mas acabou vencido pela insistência de Araújo:

“Fiz rapidamente uma breve marchinha ternária com uma série de imagens de sabor anarquista (era o que me parecia à primeira vista o movimento francês – ou pelo menos era o seu aspecto que mais o identificava ao nosso) e usei a frase singelamente paradoxal como refrão. Mostrei-a a Guilherme (que disse achar tudo divino, maravilhoso) e me desobriguei em relação à canção”, contou Caetano Veloso, em Verdade Tropical, seu livro de memórias.

A canção ficou com ele, sem destino certo, talvez num próximo disco. Então veio o convite para a participação no III Festival Internacional da Canção, o de 1968, promovido pela TV Globo, no Rio.

Guilherme Araújo, mola propulsora do tropicalismo, queria Gilberto Gil e Caetano Veloso no festival. Caetano mais uma vez resistiu e, mais uma vez, aquiesceu pela obstinação do empresário. Porém, advertiu, usaria a canção como base para um happening (assim como Gil faria com Questão de Ordem). Consignavam ali o ápice e o começo do fim da Tropicália, que finalmente ganhara corpo sólido como um movimento musical (sobretudo musical), que quebrou louças, derrubou estantes, virou mesas, e rompeu barreiras estéticas. Seus efeitos, meio século depois, ainda podem ser detectados na música do século 21, e não apenas no Brasil.

No entanto, é provável que a apresentação de Caetano Veloso e os Mutantes defendendo É Proibido Proibir tivesse sido considerada apenas mais um passo à frente do baiano para se distanciar da MPB convencional em cujas hostes militou.  Guitarras e trajes “pra frentex” (empregando um termo então em voga) não seriam novidades no ato tropicalista. O que causou surpresa, traduzida em repulsa foi a aparição inesperada de um americano de quase dois metros, glabro (isto é, de poucos pelos), a careca lustrosa, John Dandurand, o nome dele, então com 22 anos. Dandurand reuniu-se a Caetano e aos Mutantes com botas de canos longos, uma capa longa, e emitindo, em alto volume, ruídos caóticos que levaram a plateia a reagir em autodefesa:

“Eu usava um pequeno microfone, que coloquei, em parte, na boca, daí aproveitaria o feedback do fundo da garganta. Para o público, provavelmente, isto soava feito berros e uivos”. A explicação é do citado americano John Dandurand, que cumpriu o papel de agente provocador na mais polêmica apresentação de uma canção num festival de música popular nos anos 60.  Em  É Proibido Proibir, na eliminatória do FIC, no TUCA (Teatro da Universidade Católica), em São Paulo. Mais do que  a música, o traje de plástico verde e preto, de Caetano Veloso, a iconoclastia dos Mutantes,  foi a atuação do americano que catalisou a perplexidade, transformada em desaprovação, combustão para a violenta reação do público do TUCA.

John Dandurand mora há anos, no Colorado, é citado en passant, pelo historiadores do tropicalismo. Em 2018, no cinquentenário da Tropicália, escrevi uma série de matérias sobre o movimento, publicadas no Jornal do Commercio, do Recife. E consegui encontrar John Dandurand. Por e-mail ele me concedeu uma entrevista, a primeira a um jornalista brasileiro desde o fim da década de 60. A princípio ficou meio cabreiro, acabou acedendo, e até mandou recortes e fotos de publicações da época, que guarda como recordação do histórico episódio que implodiu a Tropicália.

ENTREVISTA

– Como você conseguiu fazer tanto barulho naquela sua participação na apresentação de É Proibido Proibir, no Tuca:

JOHN DANDURAND – Eu tinha um microfone pequeno, coloquei parte dele na boca, então gritava e controlava o feedback no fundo da garganta. Para a plateia provavelmente aquilo soava como berros e uivos.

 – Você ensaiou com Caetano e os Mutantes antes daquela noite?

John Dandurand – A gente tinha gravado a canção juntos, mas minha intervenção não precisava ser ensaiada para aquela performance lá no TUCA.

 – Você esperava que o público reagisse daquela maneira?

John – Não tinha a menor ideia do por que da plateia reagir tão violentamente. Achava que o publico estava demonstrando seu amor por Caetano de uma maneira estranha, porém quando começaram a atirar coisas na gente, comecei a temer pela nossa segurança.

 – Como você conheceu Caetano Veloso?

John – Conheci Caetano mais ou menos um ano antes da apresentação no TUCA, e ele me convidou para ir com ele a São Paulo, onde gravamos É Proibido Proibir. Em seguida, Caetano me convidou para participar da apresentação no TUCA.

 – Você tornou-se um assunto polêmico nos jornais. Diziam que você era alemão, que era um travesti, ninguém parecia estar entendendo nada.

John – Como lhe disse, meu português nunca foi muito fluente, então não consegui entender a maioria das maluquices que escreveram sobre mim. Mas nem sou alemão, nem travesti, embora seja totalmente possível que eu tivesse sob efeito de drogas naquela noite.

 – Por que você veio para o Brasil?

John – Vim para o Brasil com uma banda de San Francisco, The Sound.  O grupo nunca foi muito popular, e acabamos nos separando no Rio. O integrantes da banda voltaram para os Estados Unidos, porém decidi ficar porque amei o Brasil.

 – Você também participou do show de Caetano e Gil na Sucata, logo depois eles seriam presos. Como foram estes shows?

John –  Na Sucata a plateia queria abraçar nós todos. Ficaram entusiasmados com as performances. Me lembro de chegar mais perto para apertar as mãos de pessoas na plateia.

 – E como você se sentiu, quando soube que Caetano e Gil tinham sido presos?

John – Depois que o DOPS prendeu Caetano e Gil (por subversão, até onde eu me lembre), fiquei com muito medo, e voltei para os Estados Unidos.

 – Você manteve algum contato com os dois depois disto?

John – Nunca mais vi nem Gil, nem Caetano desde então, embora Caetano tenha me aceitado  como amigo dele no Facebook. Gil recusou meu pedido de amizade. Talvez ele pense que delatei ele às autoridade antes de serem presos. Não fiz isto de maneira alguma. A embaixada americana, inclusive, recusou-se a me ajudar quando a procurei e pedi ajuda. Eles achavam que eu tinha traído os Estado Unidos por participar do evento no TUCA. Espero voltar ao Brasil e me encontrar tanto com Caetano quanto com Gil.

– E como foi sua vida depois que voltou aos EUA?

John – Depois disto, eu comecei uma carreira solo, e com várias bandas, mas não consegui ser realmente famoso. Depois me envolvi com organizações não governamentais, que ajudam pessoas pobres, e é ainda o que faço hoje. Me sinto feliz em ver que o tropicalismo tornou-se tão importante no mundo. Meu próprio país, com Trump, está voltando a trilhar mesmos caminhos malignos contra os quais me rebelei na época de Johnson e Nixon.

GIL GARANTE QUE NUNCA DESCONFIOU DO AMERICANO

Entrevistado sobre esta entrevista, Gilberto Gil surpreendeu-se quando tomou conhecimento que John Dandurand, supôs que ele, Gil, desconfiasse que  fosse um agente da CIA

“Ele era um menino americano que se aproximou de nós, tinha interesse em muita coisas brasileiras, inclusive na questão dos índios, da Amazônia. Era músico, tocava compunha, teve um período de colaboração conosco, até que veio nossa prisão, nosso exílio, e perdemos contato com ele.

 Isso da CIA era uma lenda urbana que atingia não só a ele, mas a muitos americanos, especialmente jovens, que vinham pra cá. A paranoia da época, incluía esta coisa de achar que todo americano fosse da CIA, mas  não foi o meu caso em relação a ele. Se ele achou que eu tinha este tipo de desconfiança em relação a ele, tá enganado. John dormia, comia lá em casa, era meu amigo, nunca tive nenhum tipo de paranoia com ele não. Manda um abraço pra ele”.

(a foto que ilustra a postagem é d apresentação no Tuca, em São Paulo)

2 comentários em “Um objeto não identificado no tropicalismo

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  1. Show de lembrança Teles! Imagine a situação fruto do The Brazilian Driver, o Wally da MPB, acompanhando, convivendo e sendo influenciado por esses acontecimentos na época, aos 17, 18 anos de idade. Isso desde ele ter conhecido e trabalhado com Gilberto Gil, Guilherme Araújo e Roberto Santana, em 1967, no Recife, Caruaru, Itamaracá, supervisionado por Carlos Fernando. Isso tudo pro TPN, orientado por Hermilo Borba Filho e Leda Alves. Ôh sorte dele!!!

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