Um arquivo precioso salvo das águas do Capibaribe

Quando escrevi o livro Do Frevo ao Mangue Beat, título sugerido por Tárik de Souza, para a Editora 34, lançado no final de 2000, dediquei um capítulo ao que chamei de udigrudi pernambucano, ou seja, um grupo de músicos que misturavam regionalismos com o rock psicodélico americano ou inglês, embora com predominância de sons acústicos. O aditivo psicodélico que usavam também era regional, chá de cogumelos. A tal Manita Matutina de que Zé Ramalho cita em Avohai.

Ignorado até mesmo no Recife, o udigrudi PE  deve ter sido o capítulo mais lido do meu livro. Sem querer deflagrei uma corrida ao ouro. De repente, LPs como Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários, que se vendiam por precinhos camaradas nas calçadas do Centro da Cidade, Flaviola, Lailson & Lula Côrtes, o Paêbirú – que virou lenda – se tornaram objeto de desejo de curtidores de som de todo país. Logo estava no exterior (todos foram relançados lá fora). Inclusive o mais raro de todos, Rosa de Sangue(1980), de Lula Côrtes, que nem foi lançado.

Na época,  a Ariola aterrissou no Brasil com gosto de gás. Contratou todo mundo, inclusive Lula Côrtes, que gravou O Gosto Novo da Vida, bem recebido pela crítica. Começava a tocar no rádio quando a Ariola foi acionada judicialmente pelos advogados da Rozenblit, e tirou o álbum de de circulação. Por sua vez, a Rozenblit arquivou Rosa de Sangue, que permaneceu inédito durante décadas. Na época do livro da Editora 34, eu e Duncan Lindsay, que veio produzir um disco de Alceu Valença, fomos ao escritório de seu Zé Rozenblit, uma pessoa extremamente gentil. Que nos contou histórias, no apresentou discos, muitos raros, incluindo um exemplar de Rosa de Sangue.

Pelo que sabia, as matrizes de praticamente todos os discos produzidos no estúdio da gravadora, na Estrada dos Remédios, em Afogados, foram danificadas pelas inundações do rio Capibaribe.  Em 2019 fui à Comdil/Polydisc, empresa a qual pertence o acervo da Rozenblit, que fechou as portas em meados dos anos 80. Hélio Rozenblit, filho de José Rozenblit, sócio majoritário da gravadora, desde adolescente trabalha no estúdio da empresa do pai, e continua no ofício na Polydisc, que funciona no mesmo local, e no mesmo estúdio.

Ele produziu centenas de discos, entre esses o Paêbirú, e faz uma revelação, que só é novidade, porque ninguém se preocupou em perguntar antes. A Rozenblit teve muitos prejuízos com as inundações do Capibaribe, nos anos 70 (enfrentou a primeira cheia em 1966), mas as fitas masters foram quase todas preservadas, inclusive as do ciclo da psicodelia. Estão bem armazenadas, bem conservadas,  em perfeitas condições. Uma descoberta ótima para a música brasileira, porque a Rozenblit gravou muito mais do que frevo, o que só acontecia quando se aproximava o carnaval. Todos os gêneros e tendências tinham vez na gravadora dos irmãos Rozenblit.

José Rozenblit (falecido em 2016, aos 89 anos) era um melômano, que hospedava artistas em sua casa. Uma vez me contou sobre Silvio Caldas, que passava temporadas no Recife, e gravava na Rozenblit. Disse que quando Silvio vinha comprava um garrafão de cinco litros de Johnny Walker. Lamentava não ter deixado um gravador ligado quando “O Caboclinho Querido” ingeria talagadas de Johnny, deitado numa rede, na varanda, com um violão, e soltando a voz privilegiada em clássicos da música brasileira.

(na foto, a fita master de Paêbiru – O Caminho da Montanha do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, 1974)

2 comentários em “Um arquivo precioso salvo das águas do Capibaribe

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  1. Teles, sabe quem costurou essa ida do Lula Côrtes junto ao Mazzola, diretor artístico da Ariola, na sua rápida existência no Brasil com esse nome, né?!

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