O bolo de goma é a nossa madeleine proustiana

Cinco pessoas deram entrada em hospital do Rio vítima das pastilhas Valda. Até aqui eu considerava a pastilha Valda um dos bregueços mais seguros do mundo. Antigamente, achava o leite. Tinha até um ditado americano, safe as Milk, ou seguro que nem leite. Então descobriam que o leite não era assim tão joinha. Muita gente passou a manifestar reações à lactose. Ou mudaram as pessoas ou mudaram o leite. Porque tomei leite recém-ordenhado, sem o menor problema.

Aí pelos 12 anos, passei umas férias em Garanhuns, e depois do futebol, corria pra padaria, e comprava um litro de leite Gisa, que vendiam numa garrafa semelhante às que vemos nos filmes ingleses. Tirava a tampinha de  alumínio, a nata compacta ficava por cima do leite, que tinha cheiro e gosto de verdade. Eu entornava num único gole, com duas ou três paradas no pitstop, pra respirar, claro.  O que sempre me traz a mente, No Milk Today, sucesso dos Herman’s Hermits, escrita por Graham Gouldman.

Mas essa da pastilha me causou espanto, porque minha avó materna era meio viciada nas Valdas, tinha sempre uma latinha à mão. Quer dizer, o que feriu os cariocas não foi a pastilha em pessoa, mas uma explosão na fábrica. Nunca imaginei que pastilhas Valdas explodissem. A cada dia, elementos que povoam nossas memórias afetivas, mais que isso, que consolidavam a firmeza do mundo em que crescemos vão perdendo a credibilidade.

Restam poucas. Referências. O nego bom, até onde eu saiba , não está proibido, e nem mudou de nome, por conta do politicamente correto. No caso de cismarem de mudar, proponho que o nego bom passe a se chamar de “moreno bom”, o epíteto do maestro Nelson Ferreira. Outra personalidade que continua onde sempre esteve, é o bolo de goma. Cá em Pernambuco temos uma expressão popular: “mais barato do que bolo de goma”.  Eu diria, “mais seguro do que bola de goma”.

Nunca um jornal saiu com a manchete: “Bolo de Goma faz mal a moça”. Taí um brebote de caráter ilibado. Pra mim é a nossa madeleine proustiana.  Continua com os mesmos sabor e textura de quando o degustava em criança. Proponho que se lhe conceda o título de Patrimônio Material do povo pernambucano, e logo, antes que a ciência encontre um defeito no bolo de goma.    

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