Dia do frevo: a origem da música e do passo no início do século XX nas ruas do Recife

Nos primeiros anos do século 20, o nome “frevo” começou aparecer na imprensa do Recife, não designando a música, mas a movimentação dos clubes e troças carnavalescas pelas ruas da capital pernambucana. A multidão parecia “frever” (ferver). Mas fervia ainda não no compasso da música que acabou sendo batizada de marcha frevo. A marcha ainda era lenta, os clubes, ricamente ornamentados, com carros alegóricos, faziam exibições, para amultidão que assistia das calçadas,janelas e portas por onde o préstito passasse. Fora dos cordões, seus adeptos acompanhavam o clube, mas ainda não fazendo o passo.

Vejamos o testemunho do maestro e compositor Levino Ferreira (1890/1970, concedido ao Diário de Pernambuco, em 1960 (a Oscar Tosta da Silva:  

“Os clubes quando desfilavam antigamente faziam fantásticas manobras, executavam originais danças coreográficas, cada clube querendo ser melhor do que o outro, cada cordão querendo sobrepujar o concorrente, dentro do mesmo clube, pois este, quando em desfile, era, como ainda hoje subsiste, formado por duas alas. Os seus componentes, formavam letras, formavam uma cruz diante das igrejas, tudo por meio de apitos, e muito bem ensaiado.

Além, dos porta-estandartes, havia ainda dois balizas em cada cordão, luxuosamente vestidos de cetim – na época fazenda caríssima e de difícil aquisição – que se esforçavam com as suas piruetas para arrancar as palmas mais quentes e calorosas. Os foliões não dançavam apenas seguia os clubes, ao som da orquestra que executava frevos infernais.

Este comportamento do homem da rua foi, aos poucos, se modificando. Os balizas se esmeravam nos saltos, os porta-estandarte dançavam sem cessar.O folião não se contentou, e passou a pular e a saltar, como faziam os balizas e demais componentes do cordão, no afã de imitar aquela estranha dança. Daqui a pouco ninguém se limitava a seguir os clubes e orquestras. Toda gente queria tomar parte ativa, moço pulava muito, velho ensaiava a saltar um pouco. Era o passo que surgia para abafar em todos os carnavais”.

Levino destoa da história oficial do frevo, contada em livros, ensaios e artigos. O autor de Último Dia, afirma, literalmente, que o passo, a dança, veio depois do frevo, a música. Quer dizer, até então só pulavam os integrantes do clube, dentro dos cordões. Aliás, o romancista e jornalista Mario Sette (1886/1950), mais ou menos, confirma isto em artigos que publicava sobre o carnaval. No romance Seu Candinho da Farmácia(1932), ele pinta com as mais vivas cores o carnaval no bairro de São José, nos anos 30.  

Por dua vez o, entre outras atividade, poeta, jornalista, cineasta, folclorista, teatrólogo recifense, Solano Trindade (1908/1974), também testemunha arguta e ocular da história, detalha os primeiros anos do frevo e do passo, num longo artigo, publicado no Diário da manhã, e maio de 1950. Baseado em reminiscências dos carnavais que viveu no Recife, Trindade narra como teria surgido o frevo e sua  dança :

“É possível que o frevo tenha surgido com os Toureiros de Santo Antônio. Então começou a inana. Este clube carnavalesco era ou é, composto pelos gazeteiros do Batalhão Descalço de Agostinho Bezerra, célebre pelas façanhas na capoeiragem pernambucana. Com ele surgiram os primeiros conflitos entre clubes carnavalescos: Toureiros contra Vassourinhas; Toureiros contra Lenhadores, Toureiros contra Pás Douradas etc. Os conflitos terminando com mortos e feridos.

Dois conjuntos se encontravam nas ruas da Mauricéia. Se eram amigos juntavam as bandeiras: a orquestra de um parava para a do outro tocar. Ambos dançando e cruzando símbolos e vivando mutuamente até que se separavam com alegria. Se porém eram inimigos, as bandeiras eram vistas uma contra a outra, as orquestras tocavam ao mesmo tempo, cada uma procurando se sobressair, até que se formava a briga.

Foi dessa necessidade de abafar a orquestra do adversário que cada clube foi lançado mão de surdo e de instrumentos de sopro mais estridentes. Foi da necessidade de abafar que surgiu a marcha frevo. E na luta entre clube já não se ouvia a melodia e sim os gritos de instrumentos e povo, trombones, pistões, clarinetes. Dos já citados Toureiros de Santo Antonio, valentes e caprichosos capoeiras organizados em sociedade carnavalesca, surgiram os frevos mais violentos, ora apianado, ora sacudindo o povo para os passos estrambóticos e agitadíssimos”.

Este tipo de frevo estridente, para abafar a orquestra do clube adversário. Ao mesmo tempo incitando e excitando os foliões, ganhou o nome de “frevo abafo”, e é atribuído, nos jornais da época, ao maestro Hermes Paixão, de quem se tem poucas informações.

Nessa terça-feira se comemora o Dia Nacional do Frevo, uma reverência ao jornalista Oswaldo Almeida, conhecido como Paula Judeu, por supostamente ter dado nome ao frevo, a partir da corruptela popular, “frever”. Almeida nasceu num dia 14 de setembro. O frevo tem seu dia também em Pernambuco, o 9 de fevereiro. Nesta data, em 1907, o pesquisador Evandro Rabello, constatou o nome “frevo” publicado pela primeira vez na imprensa do Recife, no Jornal Pequeno. Porém, algum tempo depois, o pesquisador Roberto Vieira, encontrou o nome frevo,no Diário de Pernambuco, mais precisamente em 11 de janeiro de 1906. O que não tem faz muita diferença. Como consta deste texto, nessa época frevo não designava gênero musical, mas a movimentação de clubes, troças e foliões.

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