Zé Kéti 100 anos: relembrando a polêmica de Máscara Negra, o maior sucesso de sua carreira

O carioca José Flores de Jesus, ou Zé Kéti, nesta quinta-feira completaria um século de vida. Nasceu em 16 de setembro de 1921, e faleceu em 14 de novembro de 1999 (aos 78 anos). Começou a ser gravado nos anos 40, mas só teve o primeiro grande sucesso em 1955, quando A Voz do Morro, com Jorge Goulart, entrou na trilha do badalado filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, do qual ele participou como ator. Uma década depois, o palco impulsionaria e sedimentaria a carreira de Zé Kéti, com a participação no musical Opinião (título de um samba Seu), com João do Vale, e Nara Leão (depois Maria Bethânia), dirigido por Augusto Boal.

Mas ele bombou valendo foi com a marcha rancho Máscara Negra, a mais executada do carnaval brasileiro de 1967, e um clássico da MPB. Uma história que daria um filme. A música foi lançada pela gravadora Rozenblit, em novembro de 1966, com selo Mocambo. Uma composição que daria dinheiro e muita dor de cabeça a Zé Kéti. No auge do sucesso de Máscara Negra, assinada com (Hidelbrando) Pereira Mattos, surgiu a acusação de que a música tinha sido furtada de Deusdedith Pereira Mattos (falecido em junho de 1966), de quem o parceiro de Zé Kéti era irmão.

Zé Kéti defendeu-se. Disse que a inspiração para a marcha-rancho lhe veio, em 1965, quanto se encontrava com um amigo na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio. Imediatamente entrou num bar em frente, pegou um lápis e um pedaço de papel e rabiscou o que seria a segunda parte da canção. A primeira parte teria sido feita em 1966. Pretendia inscrevê-la no festival de MPB da TV Record. Foi conversar com Hidelbrando Pereira Mattos, que era da Sbacem (editora musical), e uma espécie de lobista a serviço de compositores. Revelou que deu parceria a Pereira Mattos porque achou que o nome dele ajudaria a abrir caminhos para a música.

Zé Kéti gravou vários acetatos que foram entregues, por ele e o “parceiro” em emissoras cariocas, nas quais foram muito tocados. Quando Máscara Negra foi lançada em disco já era sucesso no Rio (teve imediatamente várias regravações, inclusive por um obscuro grupo de rock da época, The Killers). Foi aí que surgiram a viúva e a filha de Deusdedith Pereira Mattos afirmando que a composição fora roubada do falecido pelo mano Hidelbrando. Deusdedith sofreu uma trombose quando foi levar a música para mostrar ao cantor Carlos Galhardo. Foi internado e morreu no hospital. O irmão teria se apossado da maleta onde Deusdedith guardava suas composições.

Como Zé Kéti era o famoso da dupla, a denúncia virou o prato do dia da imprensa. Quanto mais Kéti se explicava mais atraía os holofotes pra ele. Foi então que recebeu mais acusações, agora por gente da música. O crítico José Ramos Tinhorão, eu conhecia bem os compositores de sambas, o convidou Zé Kéti para desmascará-lo num programa de TV. O cronista social, mais famoso do país, Ibrahim Sued revelou até o valor que teria sido pago pela música, 500 mil cruzeiros. E o cantor e compositor Ary Cordovil contou que a música lhe foi oferecida por Deusdedith em 1965, não a aceitou porque estava divulgando o samba Tristeza (Haroldo Lobo/Niltinho), com que fez sucesso no carnaval de 1966.

Mais que polêmica, o imbróglio Máscara Negra foi uma comédia bufa. Advogados de Dona Benedita Mattos, a citada viúva de Deusdedith, entraram com um pedido para que os direitos autorais da música não fossem distribuídos com ninguém até que se resolvesse a questão da paternalidade de Mascara Negra. No entanto, em 31 de dezembro de 1966, foi a vez de Hidelbrando Pereira Mattos ir desta pra melhor, ao sofrer um infarto fulminante. Ele, aliás, era sobrinho de Hilário Jovino, pioneiro do samba, e das escolas cariocas, nascido no Recife, e não na Bahia como está em quase todos os livros sobre a história do gênero.

Zé Kéti passou muito tempo sendo procurado pela imprensa para esclarecer a autoria da música mais bem sucedida de sua obra. Acabou perdendo a esportiva, quando críticos passaram também a encontrar defeitos na letra. O mais grave envolvendo Arlequim e Pierrô, personagens da commedia dell’arte italiana, onipresentes na música carnavalesca brasileira. Implicaram com os versos: “Arlequim está chorando pelo amor da Colombina/no meio da multidão”. Apontaram que quem chora é Pierrô, com uma paixão não correspondida pela Colombina. O Arlequim não é de chorar, mas de provocar choro nos outros. “A música é minha, eu faço o Arlequim chorar e ficar apaixonado quando bem entender, desde que chore na minha música”, esbravejou o autor de Malvadeza Durão.  

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