Bob Dylan tem fase cristã revista: o diabo não era tão feio como a crítica pintou

Bob Dylan, Prêmio Nobel de Literatura, gênio da raça, já teve seus momentos de limbo, de críticas depreciativas. Em 1978, já um “senhor” de 37 anos, o mais importante compositor de música popular dos EUA (ou seja, do mundo, porque os americanos se consideram o mundo, o resto é sua periferia), tornou-se um cristão novo. Aceitou Jesus. Como sua música é intrinsecamente atada à vida pessoal, a religião passou frequentar a música, mas não de maneira carola. Dylan é sempre intenso. Mesmo assim, críticos e admiradores viram esta fase pelo viés religioso, que realmente havia.

Parte dos álbuns deste período foi revisto na caixa Trouble no More, o 14º pacote da Bootleg Series, compreendendo discos, e gravações inéditas, gravados entre 1979 e 1981 A série, assim como a Anthology dos Beatles, passava impressão de que tinha a função de lançar oficialmente raridades que faziam a fortuna das gravadoras clandestinas, que as lançavam em bootlegs (o que aqui se chama disco pirata).  Porém, a série de Dylan foi além disto. Passou a ser um estudo aprofundado sobre a obra do compositor.

Ao contrário das sobras de bandas e intérpretes da sua geração, que pouco acrescentam à sua música, o que Bob Dylan deixou de incluir nos álbuns são canções que ajudam a entender o álbum para o quais foram gravadas. O melhor exemplo ainda é Blind Willie Mctell, gravada nas sessões de Infidels (1983), e que só veio à tona há 30 anos, na primeira caixa da Bootleg Series. Uma canção que poderia estas nos discos dos anos, a fase mais elogiada e marcante de Dylan.

A série chega agora aos 16º volume, Springtime in New York – 1980/1985, que reúne três músicas dos álbuns menos bem sucedidos de Bob Dylan, com sobras e regravações de canções suas e de terceiros. Shot of Love (1980) , o último e mais subestimado álbum da sua trilogia cristã, e iniciada em 1979, com Slow Train Coming, Infidels (1983), e Empire Burlesque (1985), todos mal compreendidos, em boa parte pelo viés religioso. O que leva ao poeta inglês William Blake, cuja obra foi marcada pela religiosidade, mas com questionamentos à maneira como as pessoas entendiam a Bíblia: “A visão de Cristo que tens contigo/é das minhas visões o pior inimigo/ambos lemos a Bíblia noite e dia, mas sou franco/tu lês em preto, quanto e leio em branco (uma tradução livre de Everlasting Gospel, de 1818)

O Bob Dylan em seu breve período de cristianismo canta o tempo inteiro sua visão do mundo, nunca é carola como, por exemplo, Roberto Carlos que venera o Cristo ou Nossa Senhora em canções mais ortodoxamente religiosamente do que fazem os padres cantores. Shot of Love, por exemplo, passa por longe da carolice, traz canções que parecem se referir aos tempos atuais, caso de Trouble: Confusão na água, confusão no ar/ vá pro outro lado do mundo/e encontrará a confusão por lá/Perseguição, execução, governos descontrolados/pode-se ver as frases nos muros convidando a confusão.

A 16ª caixa da Bootleg series contém 54 faixas, todas inéditas, as dos discos originais estão em versões alternativas. Depois do massacre recebido pelos dois discos cristãos, Dylan estava numa encruzilhada de incertezas. Depois do reconhecimento como um dos mais importantes autores de música popular do país, perguntava-se se ainda teria fôlego para ir em frente. Até começar a gravar, esquentava regravando canções suas, ou de terceiros, tantas que daria um ótimo disco de covers. Ele canta Mistery Train, com Ringo Starr na bateria, Sweet Caroline, de Neil Diamond, numa versão lenta, This Night Won’t Last Forever, sucesso de Bill LaBounty, ou We Just Disagree, de Dave Mason.

Os discos também tiveram uma repaginada na sonoridade. Empire Burlesque, tem som datado, na produção do produtor da vez na época, os teclados e baterias foram extraídos das canções, que soam bastante diferença, e até estranhas, foram as primeiras gravações digitais.  Infidels nem precisou de glacê. Nele Bob Dylan lidera uma superbanda, formada por Sly Dunbar & Robbie Shakespeare, Mark Knopfler (que o produziu), Alan Clarke (do Dire Straits).

Muito das críticas adversas, é culpa de Dylan, que na hora de selecionar o repertório, optou por algumas canções inferiores ao que engavetou, algumas A reunião do que foi gravado nesses três álbuns levou inclusive a um meã culpa da então ainda relevante Rolling Stones que, na crítica da caixa, reconhece que o diabo não era tão feio o quanto ela mesma pintou.

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