Fitas demo: do manguebit a Axl Rose

Até o meados dos anos 90, todo artista precisava ter sua fita demo. A fitinha podia lhe abrir caminhos. Os Paralamas do Sucesso estouraram no Rio, com uma demo com Vital e sua Moto, que entrou na programação da Fluminense FM (A Maldita). Quando estava no Rio, dormia tardíssimo escutando a Fluminense. A Dire Straits começou a fazer sucesso com uma fita de Sultans of Swing. 

E não era fácil gravar uma demo. Estúdios eram escassos, e caros. Estava em casa numa manhã, quando Chico Science e Fred Zeroquatro foram lá com a preciosa primeira fita do manguebeat. A qualidade do som não era das melhores, nem sei como me deixaram copiar (um tempo depois gravaram uma mais elaborada, com intenção de lançá-la em disco independente (esta passei pra CD).

Nos primeiros Abril Pro Rock, rolava fitas demo aos montes. Carlos Eduardo Miranda, circulava com sacolas de cassetes que ganhava, e socializava, ganhei dele uma de Os Raimundos, de um grupo Chamado Os Cachorros das Cachorras, ambas de Brasília. A fita da Os Cachorros das Cachorras acho que vinha com um cotonete.

O lance era conseguir entregar a fitinha para um produtor ou a alguma atração de algum festival, ou mesmo depois de um show em teatro. Nem sempre o pessoal que recebe tem saco ou tempo pra escutar, até porque recebiam o tempo inteiro.  Tinha artista que insistia a ponto de se tornar inconveniente. Já aconteceu várias vezes de músicos daqui me entregarem fitas pra eu repassar pra algum artista. Sempre entreguei.

Um músico, brasileiro, mas que fez nome no exterior, veio fazer show no Recife, estava jantando com a mulher num hotel em Boa Viagem, quando um cantor, já falecido, interrompeu o jantar para entregar um cassete. Já aborrecido pela intromissão, ele perguntou que tipo de música ele fazia. Ao saber que era pop, foi curto e grosso: “Eu vivo no país que se faz a melhor música pop do mundo. Não interessa”. O artista não desistiu. Disse que deixava a fita com ele. E o músico: “Melhor você não deixar, pra que a fita não vá pro lixo”.  Não foi exatamente uma maneira delicada de recusar o cassete. Mas o artista pernambucano fez por onde.   

Mas esta coisa de não escutar a demo, que depois passou a CD demo, às vezes acabam em histórias curiosas. Uns dez anos atrás, fui a uma coletiva de Maria Bethânia, na sede da gravadora Biscoito Fino, no Rio. Depois da entrevista passei pra Bethânia um CD demo de Zé Manoel, com umas canções surpreendentemente boas, consistentes. Achei que se ela escutasse iria gostar. Mas não deve ter escutado.  Uma década depois, o primeiro single do álbum Noturno (lançado em julho de 2021) Flor Encarnada (Adriana Calcanhoto), Maria Bethânia é acompanhada ao piano por Zé Manoel.

Uns dias atrás, num podcast, Jerry Cantrell, da Alice in Chains, contou uma história de fita demo acontecida com ele, então um desconhecido guitarrista de 22 anos, foi assistir a um show do Guns ‘n’ Roses, em Seattle. Levava no bolso uma fita demo da sua banda, para entregar a Axl Rose, então o nome mais badalado do rock. Depois do show, ele conseguiu se aproximar de Axl e lhe deu a fita, e viu que o cantor do Guns ‘n’ Roses, quando se afastou dele, jogou a fita fora. A banda de Cantrell, a Alice in Chains, estouraria dois anos depois, com a cena grunge de Seattle, que mudou a música dos anos 90.

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