Com os Cosme e Damião o trunfo era pau

Nesta segunda-feira, 27 de setembro, em que se celebram os santos São Cosme e São Damião, vamos de outros Cosme e Damião, que não tinham nada de santo. Era assim que se batizou um policiais da Companhia de Policiamento Ostensivo, seção especial da PM- PE, cujos integrantes, sempre em dupla, circulavam pelos bairros do Recife, sobretudo os do Centro. Eles entraram em ação na capital pernambucana em 27 de setembro de 1960, coincidindo com o dia dos santos. Aliás, os Cosme e Damião foram instituídas em vários estados da federação.

No Recife, tornaram-se logo tão populares quanto temidos. O povo chamava “Os Corme”. O alerta de “Lá vem os corme”, era sinal para quem tivesse culpa no cartório se escafeder, e os demais torcerem para que “os corme” passassem direto. Os Cosme e Damião esquentavam facilmente. Uma vez prenderam um rapaz porque ele tava com a parte de cima da camisa desabotoada, aparecendo os pelos. Passou a noite no xilindró. Uma noite, uma dupla deles ia passando pela Rua da Guia, no Bairro do Rio Branco, conhecida pelos cabarés. A prostituta Maria José Nogueira, conversava com uma amiga na janela de uma das casas, as duas gargalhavam. Um dos “santos” (como também era chamados) mandou que Maria “guardasse sua viola”. A moça levou na brincadeira e convidou a dupla para tocar na viola dela. “Nem Cosme, nem Damião gostaram da brincadeira, levaram a mundana para a cadeia debaixo de cacetada” (matéria do DP).

 As manchetes sobre arbitrariedades dos Cosme e Damião eram diárias. Algumas (todas do DP): “Sem Motivo Cosme e Damião Atiraram no Vendedor Ambulante com Calibre 38”, “Cosme e Damião Continuam Espancando: Menor Teve Cabelo Tosquiado, A Língua Queimada e Foram Jogados na Maré”, “Palmatória Nova Arma Que Os Cosme e Damião Vêm Usando”.  

Depois de mais de um ano sofrendo nas mãos dos atrabiliários Cosme e Damião, a população, de vez em quando ia ao revide, como atesta a manchete: “Cosme Apanhou do Povo no Bairro do Recife, enquanto Damião Fugia”. Em outubro de 1961, um serralheiro tomou umas cilibrinas a mais, e começou a perturbar na Zona da Rio Branco. Os Cosme e Damião tentaram pegá-lo, mas o homem estava virado. Investiu em cima da dupla, botou um pra correr, tomou o revólver do outro, e mandou bala. Quem o segurou foi as pessoas que estavam na rua. Mas “os corme” continuaram aprontando a ponto de um prender o outro.

É O Cosme e Damião

Luiz Boquinha, ou Luiz de França (1911/2008), foi um dos mais importantes compositores populares do Recife dos anos 30 aos 60. Um cronista do Recife, no rádio e na TV, no início dos anos 60. É autor de Eu Vou Pra Lua e Cheguei na Lua. Forneceu música para muito interprete, sobretudo para Ary Lobo que, só num LP, de 1962, gravou meia dúzia de canções de Luiz Boquinha. A música que ilustra este texto, foi lançada por Ary Lobo, foi lado B de um 78 rotações, e descreve com perfeição a brutalidade “dos corme”. A letra tem um trecho eu diz “Foi dali pra cadeia/com a calça sem botão”. Explicação: naquele tempo não se usava ainda os zíper por estes lados. A polícia quando prendia um, arrancava os botões das calças, para que o elemento não conseguisse correr.

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