Disco do domingo: um clássico de Vanja Orico

O disco do domingo

A capa que ilustra a postagem é do terceiro álbum de Vanja Orico, um dos mais injustos esquecimentos da MPB. Os poucos que ainda se lembram dela é pelo filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, premiado em Cannes, em 1953. Vanja atuaria em outros filmes sobre o tema, a exemplo de Lampião O Rei do Cangaço (1964), de Carlos Coimbra. Vanja fez tanto sucesso como atriz de O Cangaceiro, quanto com o disco que lançou na mesma época, e que tornou internacional a música Mulher Rendeira, tema de domínio público, atribuído ao próprio Lampião, mas que foi adaptada, e assinada, pelo paraibano Zé do Norte (Alfredo Ricardo do Nascimento, 1908/1992).

Vanja começou no cinema por acaso. Morava na Bélgica (o pai era diplomata), onde ganhou um prêmio para estudar canto lírico em Roma. O pai permitiu, mas a matriculou num colégio interno, com folgas no final de semana. Numa dessas folgas, parou para ver uma filmagem que estava sendo feita na rua. O diretor prestou atenção na moça morena, com jeito de índia, e a convidou para participar do filme. Ela disse que aceitava, mas só poderia começar no próximo final de semana, quando reapareceu com um violão.  O diretor que falou com ela era o iniciante Federico Fellini, o filme Luci Del Varietá (no Brasil, Mulheres e Luzes), e Vanja aparece cantando pela primeira vez no cinema. A música? Meu Limão Meu Limoeiro (José Carlos Burle).

Vanja Orico (Chantecler) como em todos os discos da cantora tem repertório impecável, mesclando canções do folclore brasileiro, com música popular. Nele está a primeira gravação de Opinião e Acender a Vela (de Zé Kéti), depois sucesso com Nara Leão (Acenderas velas foi mais sucesso com Elis Regina e Jair Rodrigues). Tem inédita de Dorival Caymmi, Afoxé, acompanhada pelo conjunto de Solano Trindade, Dandara Hei, mais uma inédita, esta de Jorge Ben, que foi lançada em compacto, como lado B de Opinião. Ela vai do coco, O Nordeste Não se Rende (Catulo de Paula), à MPB engajada, Aruanda, de Carlos Lyra e Geraldo Vandré.

A carreira de Vanja foi interrompida em 1968. Ela acompanhava o cortejo que levava o corpo de um estudante de medicina morto numa passeata no dia anterior. A polícia veio dispersar a multidão à bala. Vanja Orico foi até os soldados, ajoelhou-se diante deles e pediu para que não atirassem: “Somos todos brasileiros”. Ela foi presa, tornou-se notícia no mundo inteiro. Depois de libertada foi morar em Paris, enquanto a temperatura esfriava.  Logo retomaria a carreira de atriz no Brasil, chegou a dirigir um filme, O Segredo da Rosa (1974).  Em 1994, gravou no Recife com o Quinteto Violado, um álbum que tem seu nome por título, produzida por Pedro de Souza. Vanja Orico morreu em 2015. Seus discos estão fora de catálogo, encontram-se dois ou três nas plataformas de música para stream, ou no youtube.

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