Carlos, Erasmo & Joana, Maria, nos anos de chumbo

Há 50 anos, o rock brasileiro enveredou por uma trilha alternativa. Nada de iê-iê-iês românticos, como música de fundo pra namorinho de portão. Erasmo Carlos, combatente nas hostes do rock and roll até hoje, em 1971 lançou o que é considerado seu melhor disco, e um dos melhores da década de 70, Carlos, Erasmo. Com esse LP, o Tremendão ficava no passado. Surgia um cantor e compositor sintonizado com seu tempo. Ele próprio concordava que pela primeira vez gravava um disco com canções que tinham a ver com a sua verdade.

Como raramente o faz, Erasmo revelou quem fez o quê nas seis parcerias dele com Roberto Carlos. Ele escreveu as letras, Roberto a melodia. Com pitacos mútuos em algumas delas. As canções são um avanço para o romantismo exacerbado do que compunham até 1969. Carlos, Erasmo foi antecipado por uma polêmica, por causa da canção Maria Joana, antecipada num compacto.  A associação era imediata: Maria Joana/marijuana, Erasmo apressou-se em desfazer a ideia de que fosse apologia velada à cannabis:

“Fiz a música para a filha de Nelson Motta que ia nascer. Isso, há mais de um ano e meio. A menina ia se chamar Maria Joana, mas acabou ficando só Joana. De minha parte não houve intenção, e mesmo que houvesse só seria intencional seu tivesse no exterior. No Brasil jamais faria uma coisa dessas. Gravei a música apenas porque precisava lançar um disco compacto antes do novo LP e, como não tinha outra, gravei esta mesmo. A letra é minha, a música de Roberto”, comentou , na época, Erasmo Carlos, ao repórter Paulo Stein, da revista Intervalo.

Contextualizando, em 1971, o país vivia o auge da fase mais repressiva do regime militar.  A cultura convivia, a contragosto, com  a censura prévia. Os censores tinham o privilégio de, antes do mortal comum, ler livros, ver filmes, assistir a peças e shows, e ver letras de música. O destino de uma obra de arte dependia do veredito desses senhores. Só anos mais tarde Erasmo revelaria que a censura chegou junto dele por causa de Maria Joana, mas na época desconversou. No álbum, Maria Joana é a faixa final, incluída com discrição, chamou atenção pelo nome, e até pela elaboração da música, que tem o acompanhamento da Caribe Steel Band, um grupo típico de calipso, formado por brasileiros e músicos caribenhos.

Numa época em que a crítica musical engatinhava no Brasil, as opiniões de jurados de programa de TV, radialistas famosos davam as cartas sobre o que o público devia ou não ouvir. Acrescente-se que boa parte desta turma era simpática ao regime, e defendiam a família, a moral, e os bons, fatores que levavam em conta para liberar ou não o trabalho do artista. Curiosamente Maria Joana foi elogiada por Barros Alencar radialista, e cantor popularesco. Alencar, por sinal, gravaria um composição de Dom (da dupla com Ravel), intitulada Canção Anti-Tóxica.

TÓXICOS

Maria Joana chegou às lojas, exatamente quando o regime militar,  enquadrava hippies e drogas como inimigos a combater. Publicações como Intervalo, revista de programação de TV, com matérias sobre os ídolos da época, acentuaram seu noticiário de astros viciados, das mortes de por overdose, com amplo espaço para Jimi Hendrix, e Janis Joplin, ou de prisões por posse de drogas no Brasil. Caso do artista plástico Antonio Peticov, supostamente o primeiro detido no Brasil por posse de LSD.

Paradoxalmente, enquanto Erasmo Carlos cantava uma música fazendo uma apologia sutil à maconha, seu amigo de fé, irmão, camarada, participava de campanhas do governo Médici para combater o uso de tóxicos . A Polícia Federal anunciava, em outubro de 1970, que Roberto Carlos aceitou participar de uma campanha institucional, em que usaria sua voz para combater o uso de entorpecentes pelos jovens. A campanha começou em novembro de 1970, quando um filme curto com uma mensagem antidrogas, foi distribuído para 37 emissoras, com a voz de Roberto Carlos ao fundo. Em 1971, Pelé, o Rei do Futebol, juntou-se a Roberto Carlos, o Rei da Juventude, para participar de uma campanha reforçada, produzida pelo Ministério da Educação. Aliás, Roberto estava tão animado que se propôs a fazer, com Wilson Simonal, um show beneficente , no Canecão, a fim de levantar dinheiro para pagar o resgate, de 5 milhões de cruzeiros, exigido pelo grupo guerrilheiro Tupamaros, para libertar o embaixador brasileiro no Uruguai, Aloysio Dias Gomide.

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