Antonio Adolfo grava o Tom Jobim de 60 anos atrás

Jobim Forever, de Antonio Adolfo, é uma espécie de continuação de uma série que poderia ser batizada de “antes tarde do que nunca”.  Ano passado, ele lançou Celebrating Milton, o primeiro disco dedicado a canções pinçadas da obra de Milton Nascimento, que conheceu nos idos de 1967, um jovem promissor, vindo de Minas, mas ainda desconhecido.  Adolfo, então no trio 3-D, acompanhou Milton, na gravação de Viola Enluarada, dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Vale.

Agora é a vez de Jobim Forever, com repertório de composições de Antonio Carlos Jobim, criadas no início dos anos 60. Nove músicas que para Adolfo fazem parte de suas memórias afetivas. Ele estava com 12 anos, em 1959, quando escutou, no rádio do carro da mãe, A Felicidade, de Tom e Vinicius, feita para o musical Orfeu do Carnaval, também no filme de Black Orfeu, de Marcel Camus. A música o levou descobrir os autores, músicos e intérpretes da bossa nova. Cinco anos mais tarde ele começou a fazer parte daquela cena, numa época em que o Rio de Janeiro exalava música. Pianista do Trio 3-D participou do musical Pobre Menina Rica, musical de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Passou a frequentar o Beco das Garrafas, em Copacabana e tornou-se amigo de Tom Jobim.  Anos depois ensinaria piano ao filho e ao neto do maestro.

Jobim conciliou suas influências dos impressionistas, do jazz, e samba, num amálgama sofisticado e ao mesmo tempo popular. Sua música, seis décadas depois, continua sendo das mais executadas mundo afora. Em Jobim Forever, Antonio Adolfo retoma A Felicidade, composição pré-bossa nova, criada em 1956, e que inaugurou a parceria, que virou grife luxuosa, Tom e Vinicius.

O álbum é luxo só. Adolfo cercou-se de alguns dos melhores nomes do instrumental brasileiro: Lula Galvão (violão em oito das nove faixas), Jorge Hélder (contrabaixo), Rafael Barata e Paulo Braga (bateria. Braga tocou na banda de Jobim), Jessé Sadoc (flauta e flugelhorn), Danilo Sinna (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor, soprano e flautas), Rafael Rocha (trombone). Mais o cantor Zé Renato, que instrumental (embora Zé cante apenas os versos iniciais), A Felicidade, num arranjo requintado que se reveza entre a bossa nova e o jazz.

 O piano de Antonio Adolfo flui feito um rio largo, mas de águas tranquilas, no qual deságuam afluentes, os músicos que tocam com ele. Cada qual improvisando em intervenções que renovam canções supostamente exauridas por tantas e tantas regravações, como Garota de Ipanema, O Morro Não Tem Vez, Água de Beber. Antológico o solo de Marcelo Martins em Amparo (aberta com trecho de Por Toda Minha Vida, parceria com Vinicius).  O disco fecha com Estrada do Sol, em que todos os músicos enfatizam a beleza da melodia complexa e assoviável, da parceria de Tom Jobim com Dolores Duran.

Antonio Adolfo poderia ter seguido a estrada do sucesso nas paradas. Em 1968, com o grupo A Brazuca, e as parcerias com Tibério Gaspar, ele emplacou sucessos país afora, o maior dele a “toada moderna” (rótulo da imprensa), Sá Marina, que teve acrescentado molho de champignon de Wilson Simonal. Vieram Juliana, Teletema,  BR-3, que teve interpretação bombástica de Toni Tornado, e o Trio Ternura, no IV Festival Internacional da Canção, tornaram a dupla Adolfo/Gaspar a mais bem sucedida do início dos anos 70. Sá Marina gravada por Sérgio Mendes fez carreira internacional, com versões em vários países. Teletema venceu um badalado festival na Grécia.

Antonio Adolfo e A Brazuca gravaram dois álbuns, o último deles, em 1971, a imprensa, sobretudo O Pasquim, pegou no pé do grupo pela faixa Transamazônica, uma das obras megalômanas do Brasil Grande. O álbum não repetiu o sucesso anterior, porém  merece ser redescoberto, pelas sonoridades novas, com influências do rock que se fazia lá fora na época. Em 1972, Antonio Adolfo lançava disco solo, autoral, sem Tibério Gaspar, e com uma única parceria (com Alba Godinho). Só voltaria com o Feito em Casa, de 1977, o primeiro disco independente do Brasil bem sucedido comercialmente. Sua carreira a partir daí é basicamente instrumental, com viés jazzístico.

Há um bom tempo, Antonio Adolfo tem trânsito livre no circuito do jazz internacional, este Jobim Forever tem selo AAM Music, do próprio piano, com textos em inglês, direcionado ao mercado onde desfruta de mais aceitação e reconhecimento. Na música brasileira, cada vez mais, produtoras e gravadoras investem em artistas e músicas descartáveis.

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