Juçara Marçal explora as possibilidades do samba e do blues

Era muito comum escravo possuir violão. A habilidade de tocar o instrumento, uma das identificações nos anúncios de escravos fugidos, feito este publicado no Jornal do Recife, em 1874: “Martinho Fugiu – no dia 21 do corrente desapareceu o escravo acima. Tendo os sinais seguintes: idade, 38 anos, mais ou menos, cabelos carapinhos, sobrancelhas pretas, barba aparada, cor parda, tem todos os dentes, usa chapéu de couro, é muito ladino, tocador de violão, e se intitula forro (…). Foram pessoas feito Martinho, os responsáveis pela música urbana brasileira, pelo samba carioca, pelo samba de maracatu, pelo samba de véio, da Ilha de Massangano, no São Francisco, ou pelo folk blues do Sul dos Estados Unidos.

Samba e blues juntos, da qualidade de Delta Estácio Blues, de Juçara Marçal (QTV/Natura Musical), me lembro de escutar em trabalhos de Naná Vasconcelos, Itamar Assumpção ou de Luis Melodia. Mas com Juçara esta convergência soa diferente de qualquer coisa. É pontilhado de experiências sônicas, mas não herméticas. Vi de Relance a Coroa, de Siba Veloso, que inicia o repertório, tem uma melodia melancólica, bastante radiofônica.

Com Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, Juçara compôs a faixa título, onde Robert Johnson comparece com três sambistas de escol, Baiaco, Bide e Ismael, canção que é o enredo deste samba, e deste disco que poderia ter o nome, parafraseando Tom Zé, de Reestruturando o Samba. Embora as referências ao samba refiram-se à vertente carioca, entenda-se por samba, como já foi acima aventado, qualquer batuque com DNA africano.

 A parceria de Juçara Marçal com Kiko Dinucci, (os dois, mais Thiago França formam o Metá Metá), predispõe a dupla à peripécias inimagináveis, por exemplo, nas experiências, incrementando as músicas, estão gravação de sons de vídeos do Youtube, de portas se abrindo, de pássaros canoros, loops de disco de vinil, e gadgets eletrônicos. Como já alertou Hermeto, tudo é instrumento musical,

Delta Blues Estácio é na verdade um coletivo de uma nova vanguarda paulistana (que não necessariamente mora na cidade, ou é de lá) neste disco, comandado por Juçara Marçal (que nasceu na Baixada Fluminense), embutido no seu bojo estão, entre outros, Thiago França (o sax do Metá Metá), a cuíca do carioca Paulinho Bicolor, o cidadão instigado Fernando Catatau. E não apenas na participação instrumental, quanto na composição: Nego Leo assina Sem Cais, A Ladra é de Tulipa Ruiz, Rodrigo Ogi fez a ouriçada Crash (de parentesco distante com A Cidade, de Chico Science). Com Dinucci, a Juçara Marçal fez Iyalode Mbé Mbé. Ela vai do ioruba a La Femme a Barbe, da francesa Brigitte Fontaine, uma canção de 1995. A maioria das composições tem, de alguma forma,  a participação de Juçara e Dinucci.

No entanto, todas as lucubrações realizadas neste laboratório de sons estranhos não seriam tão bem aproveitadas não fosse a voz de Juçara Marçal, uma espécie de Jackson do Pandeiro de vanguarda, que brinca com com o andamento, atrasa e adianta, ou segue caminhos harmônicos surpreendentes. Esta turma de “São Paulo” continua reinventando a música popular brasileira.

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