Marcelo Bonfá lança Improvável Certeza, disco de reflexões

O paulista Marcelo Augusto Bonfá (de Itapira), 56 anos, ex-baterista da Legião Urbana , passou a pandemia num sítio que possuí na Serra da Mantiqueira, em Minas. Ocupou o tempo compondo canções e procurando conhecer a si mesmo: “O que a pandemia fez foi, como vi nas redes sociais, as pessoas querendo atração para si, falando de assunto que não entendem direito, acabam brigando. São oferecidas a elas duas opções, o que acaba em polarização, pois não procuram outro caminho. Vejo um mundo de zumbis, que não têm opinião própria”, desabafa.

Bonfá concede entrevista para falar do single, que lançou dia 8 de outubro, e do álbum que chega às plataformas de stream, nesta sexta-feira, 15 de outubro.  Ele é do tempo em que se lançavam um compacto de uma música, que poderia puxar um disco, agora se pensa em singles, canções com caras diferentes, não num álbum com um conceito. Não queria lançar single, mas a gravadora sugeriu que adiantasse Improvável Certeza, a faixa que dá nome ao álbum:”Foi uma das últimas letras que escrevi para o álbum. Meu disco tem um conceito, uma unidade. As pessoas têm dificuldade de conceituar, as coisas estão meio difusas”, pondera.

Bonfá comenta o clima estranho que paira no país.  Conta que a pandemia, e consequente isolamento, o levou à introspecção, a um processo de auto-observação: “As músicas foram feitas nesta época. Porém nenhuma das letras do disco fala em pandemia, nem em saúde, fala de individualismo e do coletivo Brinco que não sou baterista, sou filósofo, pelo fato de viver na contramão. Quando as pessoas vão se divertir, eu vou trabalhar. Meu disco fala das descobertas de mim mesmo. O choque da pandemia fez você se deparar consigo próprio”.

MÚSICA

Bonfá fala sobre seu método de compor. Revela que não começa uma música com um trecho de melodia: “Gravei no notebook, costumo criar uma célula, induzido pelo timbre, até que chega um momento que me diz que já tem uma intenção de música. A partir de abril fui fazendo as canções e vi que ali tinha uma unidade”. Foram seis meses de trabalho, em que ele tocou todos os instrumentos, arranjou e produziu: “Depois de pronto chamei meu filho para botar a guitarra. Ele é um ótimo guitarrista, tem seu trabalho solo”, referindo a João Pedro Bonfá, que lançou o primeiro disco em 2019.

Um método que, diz Bonfá, que se assemelha à maneira como eram criadas as canções da Legião Urbana: “Todas as músicas começaram com a minha bateria, geralmente uma levada. Renato pedia pra eu tocar, e a banda entrava em seguida. Muita música também surgia com Renato tocando baixo. A Legião chegou a ser só eu e ele por algum tempo, convidamos guitarristas, até que chegou o Dado”, relembra. Impossível conversar com Marcelo Bonfá, ou Dado Villa-Lobos e o tema Legião Urbana não vir à baila.

Ele não fará shows do novo disco, sem garantia de que lhe será oferecida uma estrutura confiável, com todos os protocolos de segurança que os cuidados com a covid-19 exigem: “Não faço muito show, eu costumo mesmo é compor, que é um processo longo. É difícil sair pelo Brasil sem uma estrutura. Fiz isso em estruturas gigantescas com a Legião. Eu até volto a fazer show, com a garantia dessa estrutura. A responsabilidade é sempre do artista, a casa tal vai abrir, e todas as pessoas vão por causa do artista. Se der problema, se o protocolo não der certo, a culpa é do artista”.

Acontece com Marcelo Bonfá o que acontece com todo músico que pertenceu a uma banda famosa. Ele faz show de disco solo, e os fãs não param de pedir musica do antigo grupo. Uns cinco anos atrás, no Rio, Robert Plant, apresentava músicas do seu novo disco, com músicos árabes e africanos, e mostrava-se visivelmente irritado pela quantidade de gente pedindo canções do Led Zeppelin: “Comigo não tem isso. canto música do Legião com o maior prazer. Cantar o Legião é muito mais fácil, se você chegar e pedir, eu canto, sem problemas”.

 Mas mesmo assim ele descarta a continuidade da turnê do Legião Urbana, realizada entre 2015 e 2018, com André Frateschi no vocal: “A Legião acabou em 1996. O que aconteceu foi um trabalho pontual, fizemos aquela turnê pra comemorar o álbum número 1. A gente teve a vontade de subir o palco com este repertório, não foi o retorno da banda. Foi um baita de um sucesso, acabamos fazendo os 30 anos do segundo álbum”.

O reencontro com os fãs foi abalado pela intervenção de Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, para impedir que os dois músicos usassem o nome da Legião Urbana, marca registrada pelo pai. Ele ainda reivindicou parte do que foi arrecadado na turnê: “Foi confusão na cabeça dele. Eu recebo bem, não preciso de muito pra viver, me sustento com os direitos autorais. O menino recebe que nem eu, porém queria mais, da minha apresentação. Quer participar de uma coisa que ele não tem conhecimento, porque a legião sempre foi uma coisa muito fechada. E ele recebe muito mais de direitos autorais do que eu, queria mais?” Ocaso foi parar no STF, onde Marcelo Bonfá e Dado Villas-Lobos ganharam a causa.

Numa entrevista, Robbie Krieger, guitarrista de The Doors comentava sobre a dificuldade da convivência com o intempestivo Jim Morrison, vocalista do grupo, com quem Renato Russo chegou por vezes a ser comparado pelo temperamento explosivo, inclusive no palco. Marcelo Bonfá, que fundou a banda com Renato, garante que era boa a convivência entre os integrantes do grupo, inclusive com o vocalista:

 “Na Legião a gente não convivia tanto, mas trabalhando juntos éramos superamigos, sempre nos respeitamos muito, uma banda muito democrática, a gente conseguiu dominar os nossos egos. Claro, em relação ao Renato é muito mais fácil analisar uma pessoa que está ali na frente, falando, cantando. Para criar as músicas, a gente estava no estúdio.Renato dizia, começa aí Bonfá, faz aquele bombo parecido com o Joy Division, e começava, assim as músicas surgiam. Às vezes ele chegava com a música pronta, tem algumas que já levei assim. Um grupo onde todos acreditavam que queriam mudar o mundo, e o resultado taí. As pessoas se identificaram até hoje com o trabalho do legião. Fico grato por ter participado”.

Marcelo Bonfá no sítio da serra da Mantiqueira, seu refúgio pandêmico, escuta música no Spotfy. Faz sua seleção e deixa que a inteligência artificial comande o play-list: “Não ouço muito rádio. Ouço a oferta da semana no Spotfy, são coisas que ouço, o algoritmo manda as músicas de que gosto. Acabo conhecendo coisas novas, eu passeio por aí. A descoberta da semana sou eu mesmo. Agora, por exemplo, não vou fazer disco físico. Sei que as pessoas estão gostando de tudo, cassete, vinil, mas eu trabalho no universo digital, sou um aquariano, adoro a tecnologia, aquariano está cem anos à frente. Tenho minhas mídias sociais, mas ali tenho voz ativa, falo com as pessoas diretamente, eu mesmo que respondo a ela”.

DISCO

O título Improvável Certeza chegou com a derradeira letra que Marcelo Bonfá escreveu para o disco, que até seria chamado de Antes do Amanhecer. São dez faixas, quase todas rock lentos, com ecos do pós-punk, e alguma coisa do Legião Urbana, nas letras “Estava tudo indo tão bem de repente comecei a ver /outro jeito de enxergar/este mundo tão fechado”, versos de Cenários, que abre o repertório do álbum. As guitarras são mais fortes, com um riff meio Satisfaction, A Vida que Eu Levo, mais uma canção de autoconhecimento: “Tudo que eu vejo reflete aquilo que eu sou/o sol brilhando no céu/domina com seu esplendor/o ouro que os deuses nos deram/é o seu próprio amor”.

Os timbres variam. Avatar é dominado pelos eletrônicos, em que faz uma alusão a seu papel como músico e ao isolamento social, de forma bem humorada e irônica: “Minha banda na revista,mas eu não estou/ só sou um baterista, eu não sou um cantor/ Quem ouve a minha musica não sabe quem eu sou/ tenho um avatar que leva o meu nome/ ele é mais famoso e bonito do que eu/ não saio da minha casa nem pra ir à esquina/está todo mundo armado/ e eu não dou mais nem boa dia”

É um disco de rock dos que cada vez mais vêm sendo feito menos, com boas melodias, letras que contam histórias, expressam reflexões, e por um músico que faz parte de um momento importante na MPB, de uma banda que foi a melhor tradução do momento em que o país finalmente voltava à democracia. Marcelo Bonfá em Improvável Certeza canta canções sombrias, mas esperançosas num momento em que a democracia no país está à mercê de chuvas e trovoadas.

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