Mar Assombrado faz a junção de música e literatura no álbum Geografias Estranhas

O rock progressivo é filho do sintetizador. Quando o instrumento tornou-se mais funcional, mais compacto, portanto mais acessível, as bandas passaram a utilizá-lo, a principio, como um novo teclado, aos poucos foram descortinando suas possibilidades, e estendendo os limites da própria música do grupo. Muitos, porém abusando do sintetizador, com marabalismos estéreis, que levaram a crítica a malhar o progressivo, que por volta da segunda metade da década de 70 foi saindo da vitrine. Claro, o sauerkraut rock (o rock chucrute), o prog alemão, com seu estilo mais cerebral, menos espetáculo, até hoje é elogiado, e cultuado.

Portanto o prog rock virou um subgênero feito para um universo paralelo dentro da música popular. Se no Brasil são poucos os que o cultivam, em Pernambuco é até surpresa quando surge algum grupo de prog rock, e com um projeto consistente. É o caso da recifense Mar Assombrado, que lança neste sábado, 16 de outubro, às 16h, na loja Bolacha Discos e Coisas (João Ramos, 50, Graças),  o CD Geografias Estranhas. Os dois discos anteriores da banda: Entre As Ondas, Sob As Árvores (2015) e Canções do Farol (2017).

O Mar Assombrado é ao mesmo tempo prog rock e literatura, uma viagem musical pontuada por poemas do músico e escritor André Sena (professor do Departamento de Letras da UFPE). Com Sena (autor das músicas, arranjos, poemas, guitarra base), formam o Mar Assombrado neste disco: Marcos Melo (guitarra solo, gravação e mixagem), Rafael Bernardo (contrabaixo), Douglas Brito (bateria), Diogo Santana (teclados base e solo), Daniel Felix (teclado solo), Pedro Huff (violoncelo), Henrique Albino e Gilmar Black (flautas transversais e saxes), Guto Santana (gaita). Mais as vozes de Emília Caldas, Vanessa Sueidy, Telma Scherer e Gleyce Vieira.

Curioso é que esta viagem ontológica, que tem o mar como metáfora, coincide com o anúncio de que o Recife é a cidade do planeta mais ameaçada de ser engolida pelo oceano.  Geografias Estranhas traz dez temas, 52 minutos de música e poemas.

Um longo poema musicado, de início a declamação, Intro – Abditie Causae, com teclados e guitarras ao fundo, dá ideia de um sarau, ou seja, as palavras serão protagonistas, com música de fundo. Porém à medida que o disco se desenvolve, os temas musicais adquirem um dinamismo, de andamento, de instrumentação, que passam a se a música e as palavras viram parceiras. O prog rock, mesmo seus detratores admitem, abriga músicos de talento, e é o que acontece com os músicos que fazem Geografias Estranhas (das grandes bandas progressivas, em vários trechos me lembra o Yes).

Um álbum para se escutar como se lê um livro, sem se ocupar com outros afazeres. O ideal seria ouvi-lo com um libreto com os poemas. Os climas se revezam entre faixas, alguns mais allegro, uns ma non troppo, outros andante. Em As Horas, por exemplo, a voz feminina dizendo os versos, posta-se à frente em parte do tema, lento, mas a música vai aos poucos modificando-se, Na metade da faixa, a poesia passa à discursiva, guitarras irrompem, é mar revolto. Geografias Estranhas deve funcionar ainda melhor no palco, tem todas as características de um musical, pede cenários e iluminação.

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