Quando Capiba anunciou que trocaria o frevo pela música erudita

Dá pra imaginar Capiba, autor de dezenas de frevos canção de sucesso, chamar a reportagem de um jornal do Recife e anunciar: “Basta de frevo, pretendo agora me dedicar à música erudita”? Mas foi o que ele fez há 75 anos, numa entrevista ao jornal Diário da Manhã. O pernambucano, de Surubim, viveu na Paraíba, primeiro em Taperoá, depois em Campina e João Pessoa até os 26 anos. Veio para o Recife em 1930, depois de passar num concurso do Banco do Brasil. Já era músico e compositor. O pai foi mestre de banda, quase todos os irmãos e irmãs tinham inclinações musicais.

Desde 1934, com É de Amargar, Capiba passou a ser um dos autores mais premiados, e cantados do Carnaval de Pernambuco. Quando ele revelou que enveredaria pelas música de concerto, já acumulara uma obra de dezenas de frevos canção, e de maracatu canção, um gênero surgido em 1937, do qual foi o mais prolífico compositor (um lado de Capiba que merecia ser revisitado).

“De longa data, alimento que desejo escrever gênero mais sério e, ultimamente, animado pelos constantes estímulos que recebi do meu velho amigo José Siqueira, que aqui veio dirigir a Sinfônica de Pernambuco, e que também é compositor ilustre, resolvi aplicar-me à composição de canções e peças de caráter brasileiro para canto e piano”, confirmou Lourenço da Fonseca Barbosa, ao jornalista (que não assina a matéria)

Adiantou que havia entregue à maranhense Dilu Melo, cantora lírica, que também interpretava o cancioneiro folclórico brasileiro, a valsa Lá na Serra, O Engenho Está Moendo, batuque nortista, e Boneca de Pano, canção com versos do poeta alagoano Jorge de Lima. O pianista amazonense Arnaldo Rebelo também recebeu dele composições inéditas: parte de uma série intitulada Valsa Antiga, levou as peças de números 1,2,3. Capiba antecipou que estava escrevendo músicas inspiradas em quatro telas que viu numa exposição de Lula Cardoso Ayres, Regressando do Eito, Fugindo, Carregando Banguês, e Casa Grande & Senzala.

Em 1948, Capiba, então com 44 anos, começaria a trabalhar com o jovem, 21 anos Ariano Suassuna, escrevendo música para teatro. Para uma peça de mamulengos, intitulada Haja Pau, de José Moraes Pinho, musicou poemas de Garcia Lorca. Capiba continuou compondo frevos, que se restringiam ao período carnavalesco. Em 1949, o maestro César Guerra-Peixe ao Recife, para trabalhar com a orquestra da Rádio Jornal do Commercio. No seu tempo vago, Guerra-Peixe deu aulas de harmonia e composição a Sivuca, Jarbas Maciel, Clóvis Pereira e a Capiba. Curiosamente, os três últimos foram figuras exponenciais na música armorial, muito antes desta Guerra-Peixe entrelaçou o folclórico, o popular e o erudito. Nesse mesmo ano, Capiba teria pela primeira vez ma peça erudita executada por uma orquestra sinfônica, a do Recife, que incluiu num programa de um concerto, a Suíte Nordestina (com orquestração feita por Guerra-Peixe.

O guinada de Capiba para a música erudita não interferiu que ele continuasse na música popular, com bastante frevos. Algumas peças dele foram agregadas ao repertório da Orquestra Armorial, que gravaria, com a regência do maestro Cussy de Almeida, A Grande Missa Armorial, Capiba.

ACERVO

Quanto ao volumoso acervo deixado por Capiba, boas novas. Técnicos e especialistas irão catalogar, digitalizar o acervo, um projeto da produtora Página 21, com a Associação cultural Capiba, que tem como presidente de honra, Zezita Barbosa, viúva do compositor, que mora em Surubim. O presidente da ACC é Fernando Guerra. O proponente do projeto é Lucas Guerra, professor do CPM, membro da Associação, e curador musical do projeto Capiba – Conservação e difusão. Terminado o projeto, o acervo ficará disponível na web.

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