Na capa do disco o tempo não passa para o artista

O Eco Festival, em Paulo Afonso não durou muito, acho que só teve uma edição, em 1998, mas foi bacana, o palco, com uma paisagem de fundo fantástica, as famosas cachoeiras, bem iluminadas, um espetáculo à parte. Uma das atrações foi o violinista francês Jean-Luc Ponty, que a gente escutou muito, na época do jazz fusion. Não fosse isso, um cara que influenciou o som de Frank Zappa, quando tocou na banda dele. Fiquei a fim de entrevistar o cara. Mas não o vi por lá no primeiro dia. Nesses festivais, normalmente, encontramos artistas no restaurante.

À noite, no jantar, fiquei à mesa com Beto Rezende (um grande cara levado pela covid-19), e comentei não ter visto Ponty. Beto me apontou um homem, magro, de cabelos meio grisalhos e curtos, de pele muito clara, sozinho: “Olha ali”. Eu já havia cruzado com Ponty no hotel e o visto mais cedo no restaurante, e não o reconheci.

  A memória que temos do artista é de capas de discos. A que tinha de Jean-Luc Ponty, era cabeludo, e bem mais jovem, claro. Não ousei abordá-lo. Não se deve interromper refeições de ninguém, muito menos de quem se quer arrancar uma entrevista. Não arranquei. Não o vi mais.

Um ano antes, cobri o Skol Rock, em São Paulo, com uma programação de metal pesado. A imprensa hospedou-se no mesmo hotel dos artistas. Nunca fui muito de heavy metal, mas seria o sonho para um headbanger. No café da manhã, estava o pessoal da Scorpions, muito diferentes da imagem que tinha deles. Estavam meio calvos, buchudos, e eu não distinguia quem era quem. Jason Bonham estava na programação, mas se esteve no restaurante, não sei. Não o reconheceria. Se tenho discos do filho de John Bonham não me lembro. Bruce Dickinson sentou perto de mim. Merecia puxar um papo. Porém, o entrevistei uma vez, quando em carreira solo, e reaproximando-se do Iron Maiden. Não gostou quando perguntei do que mais sentia saudade: se dos integrantes da banda ou de Eddie, o boneco mascote do Iron. “Eu ia lá ter saudade de uma porra de um boneco?”, respondeu. O clima da entrevista ficou meio assim, assim. Ronnie James Dio, só vi à noite, quando voltava do festival. No hall do hotel. Parecia um gnomo. Baixinho, de botas de saltos altíssimo, e um chapéu de abas largas e pontudo.

Em 2010, no North Sea Jazz Festival, em Roterdam, na Holanda. Fui ao backstage do palco jazz clássico, onde tocaram Sonny Rollins e Ornette Coleman, um dos músicos de minha particular predileção. Quem já estava lá era Stanley Clarke, com quem bati um papo descontraído, super simpático. Eu tenho um LP dele autografado, de quando veio ao Recife, com Andy Summers, Stewart Copeland, e a cantora Deborah Holland, formavam um grupo chamado Rush Hour, que se apresentou no Circo Voador, em 1987.

Stanley foi pro palco, e eu lá sentado, esperando, ao menos, ver pessoalmente Ornette Coleman. Eis que a porta de um camarim entreabre-se, e vejo um negro alto, de ombros largos, lendo alguma coisa. É ele, Ornette, pensei, Fui até lá na maior cara de pau. Me apresentei, disse que adorava seus discos, sobretudo The Shape of Things to Come, e Dancing in Your Head. O cara me olhou assim de revestrés, e falou: “Pegou o sujeito errado. Mr. Coleman é o da porta de lado”. Também não reconheci o tamporoso guitarrista James Blood Ulmer, tava diferente da capa dos discos.

Fui ao outro camarim. Toquei na porta. Uma senhora japonesa atendeu. Sem saber o que dizer, perguntei se seria possível um autógrafo de Ornette Coleman. Ela fechou a porta. Voltou com uma papel e uma assinatura. Agradeci. E Fiquei esperando ele sair do camarim. Quando saiu, eu jamais o reconheceria. Mais uma vez a capas dos discos. A imagem que tinha dele era de um negão alto, invocado, e vejo um senhor, macróbio, da minha altura, magrinho, sem invocação nenhuma. Mas valeu o showzaço, com James Blood Ulmer e os marroquinos Master Musicians of Jajouka (que fizeram um disco com Brian Jones, a única produção dele). O autógrafo? Tá perdido em algum canto deste imenso apartamento.

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