Donato e Macalé sob a égide da alegria em Síntese do Lance

João Donato lançou nessa sexta-feira, 22, o disco Síntese do Lance (com selo Rocinante) com Jards Macalé, tem lives agendadas para novembro e dezembro, está gravando mais um álbum com o filho Donatinho. Finaliza também um disco solo, com melodias suas com letras de, entre outras parcerias, Gilberto Gil, Dona Onete e Céu. Ano que vem grava mais um disco com os americanos do projeto Jazz Is Dead. Passa um mês nos Estados Unidos, onde fará shows em Nova Iorque e Miami, este último com Eumir Deodato. Nada mal a agenda, para quem está com 87 anos (completados em 17 de agosto).

João Donato e Jards Macalé são de gerações diferentes, praticam estilos que não poderiam ser mais distinto.  Formatou música única, sempre linkada à bossa nova, de quem se afirma que ele seja precursor. Quando, em verdade, a bossa nova é invenção de João Gilberto, as suas harmonizações ao violão, as divisões de frases. Depois de gravada por João, as canções tornavam-se bossa nova. Em João Donato, da BN somente harmonias desconcertantes o cantar pianinho, o balanço é criação sua, samba meio funkeado com levada caribenha. Suas canções soam como se plumas flutuando no ar, tamanha a descontração com que as interpreta.

Jards Macalé já teve pecha de “maldito! Foi o primeiro dos pós-tropicalistas com a participação performática de Gotham City (dele e José Carlos Capinam), comendo rosas no palco, ou na parceria com Waly Salomão, que imprimiram um clima contra cultural a discos de Gal Costa, de início dos anos 70. Aos 78 anos, Macalé arrebanhou, em anos recentes, um séquito fiel de admiradores (o mesmo aconteceu com João Donato), e é presença frequente em festivais de música pop.

A transgressão está capa, dois homens na terceira idade ousam pousar nus, com as vergonhas encobertas, desafiando os rigores da estética que liga velhice à feiúra. A foto, de Léo Aversa, foi uma sugestão de Ivone, mulher de João Donato. As dez faixas do álbum não têm pretensão de estabelecer novos limites, são uma ode a liberdade. As canções não se prendem a cânones, nem os dois precisam mais provar nada, nem a comparações com trabalhos anteriores. Côco Táxi tem um refrão de cantiga infantil, é a única assinada pelos dois no álbum. A propósito, coco táxi é um triciclo para transporte de passageiros, que circula nas ruas cubanas, com uma cabina improvisada no formato de um coco. Tanto João quanto Jards já viajaram nele: “Coco táxi/coco louco/é neste balanço bom/que eu fico louco”.

Um disco que soa mais Donato do que Macalé. Talvez muitos possam achar mais do mesmo, sem detectar a sutileza da dupla.  Há faixas extremamente lúdicas, feito o tema instrumental João Duke, de Macalé, em que João é enquadrado no estilo de Duke Ellington, ou vice-versa, com citação instrumental à Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius.  

 Um abraço no João é uma parceria entre Donato e Joyce Moreno (citação ao instrumental Um Abraço no Bonfá, de João Gllberto) Dona Castorina, apenas de Donato, é dedicada à sua mulher, Ivone, que o trata por castor, por achar que ele se parece com o roedor. Por sua vez, ele a chama de Castorina. Pois é, num disco que não se arvora ao sucesso radiofônico, nem a milhões de likes na web, os dois se permitem qualquer coisa. Assim Jards Macalé também dedica uma composição à sua mulher, Rejane, em O Amor Vem da Paz, parceria com Ronaldo Bastos.

Marlon Sette, Sylvio Fragomenga e Pepê Monnerat, do selo Rocinante, foram os responsáveis por colocar Donato e Macalé, no estúdio em Araras (SP), também assinam arranjos e a produção do disco que se define na abertura. Antes de Côco Táxi, ouve-se um grito “Alegria”, a síntese do lance. Com alegria o disco foi foi feito, e alegria é o que emana dele.

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