Nilza Costa, baiana de Salvador, desconhecida no Brasil, lança terceiro disco na Itália, em iorubá, português e italiano

É muito comum se deparar na Europa com músicos, ou intérpretes, brasileiros com uma carreira longa e bem sucedida, discos bem avaliados, e desconhecidos no Brasil. Um exemplo é Sérgio Bacalhau, olindense, do Bonsucesso, discípulo de Naná Vasconcelos, percussionista requisitado em Marselha. Bacalhau está há dez anos na França, desde então só se apresentou uma vez no Brasil, fez um show em Olinda há cinco anos.

Outro exemplo é o da cantora e compositora Nilza Costa, que deixou Salvador há dez anos. Na capital baiana, chegou a participar de um grupo feminino, de mulheres negras, que durou pouco tempo, a banda Ujahma, integrou o coro cênico do Olodum por três anos, sua grande escola. A trajetória de Nilza tomaria outro rumo ao se casar com um italiano e se mudar para Itália, onde começou a carreira solo. Convidada a gravar um single, pelo selo Soundlub e acabou fazendo o álbum de estreia, Revolution, Rivoluzione, Revolução, lançado em 2014, quando ela estava com 40 anos.

O disco abriu as portas de Nilza para os palcos europeus, e ecoou na Bahia, onde seu disco entrou nas listas de melhores do ano, mas não repercutiu fora de Salvador. A baiana chega agora ao terceiro disco, Le Notti di San Patrizio: Distorção do Tempo (Brutture Moderne). Ao contrário de muitos intérpretes brasileiros na Europa, ela não pegou o atalho que facilitasse emplacar uma carreira, ou seja, cantar clássicos da bossa nova, ou mesmo samba, ou axé.

Nilza Costa faz o que italianos chamam de afro jazz, mas que não define a música da baiana, que reuniu os batuques do candomblé, com maculelê, afoxé, samba de roda, e jazz. Ela canta em português, iorubá e italiano, acompanhada por um trio de músicos italianos, da cena jazzística de Bologna, onde mora. Le Notti di San Patrizio traz oito faixas, todas autorais. Salvador está bem presente no disco, em Afoxé do Amor, a letra é como percorrer as ruas da cidade, nomeia logradouros, e cita o sucesso Emoriô (Gilberto Gil/ João Donato), e a orquestra Rumpilezz. É a faixa mais balançada.

Resistance, que abre o disco, começa com percussão e synth, cantada em ioruba, torna-se engajado em Oselu Ko Ni Sè, onde discute meritocracia, num discurso inflamado, em português, que fala de golpe de estado, de políticos trabalhando contra o povo. A influência de Fela Kuti está bem presente nesta faixa, que tem um longo solo de sax (tocado por Massimo Zaniboni), tipicamente do afrobeat.

Um disco que está mais próximo do continente africano do que da Bahia, comparável ao trabalho do conterrâneo, Tiganá Santana que, assim como Nilza Costa, voltou-se para a África, também canta em iorubá, contribuindo para fazer ver aos gringos que o Brasil é muito mais do que a bossa nova.Os três discos de Nilza Costa encontram-se nas plataformas de música por stream, enquanto o disco físico por ser encomendado à gravadora Brutture Moderne (Brutture Moderne.it

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