O retro-futurismo do Ritual Habitual em Pagan Chant

Tipo de capa que atrai atenção, e provoca curiosidade. Que música teria um disco com tal embalagem? Basta conferir a quem é dedicado, pra se ter uma ideia: John Coltrane, Albert Ayler, Don Cherry e Charlie Haden, ou seja, jazz sem amarras a cânones do gênero. Resumindo free jazz. O grupo é liderado pelo baixista português Gonçalo Almeida, que atua na Holanda, e grava com músicos das mais variadas origens. Aqui ele está com o saxofonista Ricardo Morogna, e o baterista Phillipp Ernsting.

No texto de divulgação da gravadora portuguesa Clean Feed diz-se que o propósito do álbum está no nome do trio “Ritual Habitual”, ou seja, criar música ritualística, com repetição de motivos como método, com raízes no free jazz, mas atualizada com manipulações eletrônicas. A confluência do que se fez no passado, com o que está acontecendo no presente, uma espécie de retro-futurismo. O que não é exatamente uma novidade, no cinema Jean-Luc Goddard  fez isto admiravelmente em Alphaville (1965), cujo título foi apropriado para batizar luxuosos conjuntos residenciais que separam seus habitantes do mundo real.

Gonçalo Almeida é um criador compulsivo, tem vários projetos com outros músicos, seu ultimo disco chama-se Monólogos a Dois, apenas ele e o contrabaixo, gravado em plena rigor da pandemia, em junho de 2020, numa igreja vazia, em Roterdam. O disco teve edição reduzida, somente cem cópias.

Pagan Chant contém seis temas, começando com Útero, um diálogo entre o saxofone de Ernsting e a percussão de Morogna, na faixa mais longa do álbum, 15 minutos, de um total de 48 de música. O free jazz é um caminho que se pega sem saber aonde chegará, aqui, depois de solos frenéticos de sax, arrefece-se a velocidade, ficando apenas baixo, percussão leve. Sem intervalo entra-se na faixa seguinte, Rite of Passage. Já Psilocybe cubensis é viajada, psicojazz, como o título do tema sugere. O psilocybe cubensis é também chamado de cogumelo mágico, alucinógeno.  

Pagan Chant ratifica a habilidade do trio, difícil destacar o melhor deles, numa criação coletiva, improvisada, nenhum vai além do que pede o tema, ninguém se perde no caminho de volta. Aliás, o pessoal toca tanto, com execuções tão bem amarradas que, quando disco acaba, com o tema Eulogy, a gente fica esperando mais uma faixa.  

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