Ney Matogrosso passeia por gerações de autores em Nu com a minha música

Não basta cantar bem. É preciso saber escolher repertório, e os músicos com que será gravado. Por fim, imprimir sua marca em cada canção. Ney Matogrosso procede assim desde o primeiro álbum solo, epônimo, lançado nos idos de 1974. Acrescente-se a isto, uma elegância natural com que envolve quase todos seus discos. Quando completou 80 anos, em agosto, lançou o EP Nu com a Minha Música. Além da música de Caetano Veloso, que dá título ao trabalho, Mi Unicornio Azul (Silvio Rodriguez), Se Não For Amor Eu Cegue (Lenine/Lula Queiroga), e Gita (Raul Seixas).

Nessa quinta-feira, 28, aterrissou nas plataformas de música para stream, o álbum Nu Com A Minha Música (Sony Music), que abriga as quatro faixas do EP, com mais oito canções. Tal como a maioria dos lançamentos recentes, Nu Com A Minha Música tem a influência marcante do período mais sombrio da pandemia. Em meados de 2020, quando o isolamento social continuava sendo a única maneira de evitar o contágio, veio-lhe a vontade de lutar contra o baixo astral gravando um álbum. Assim foi conferir listas de músicas de autores de diversas épocas.

 Algo que já foi muito comum, o intérprete regravar canções bem sucedidas ou não, inclusive quando começavam a tocar no rádio. Um bom exemplo é Máscara Negra (Zé Kéti/Pereira Matos), lançadas por Zé Kéti e Dalva de Oliveira quase simultaneamente, e sucesso com ambos no carnaval de 1967. Ney Matogrosso é de regravações e recriações.

Adaptado ao novo e forçado normal, ele fez o disco usando principalmente o telefone, para combinar tons, arranjos, restrições que, paradoxalmente, abriu novos horizontes, como o de poder contar com músicos e arranjadores, e produtores nos mais variados lugares, e se valer de diversos estúdios. Selecionadas 12 músicas, enviou lotes de três canções para quatro produtores, Sacha Amback, Marcello Gonçalves, Ricardo Silveira e Leandro Braga. Gonçalves trouxe para o disco a clarinetista israelense Anat Cohen, estrela emergente da cena jazz de Nova Iorque, que toca em Sei dos Caminhos (Itamar Assumpção/Alice Ruiz).

Com Atento aos Sinais, Ney Matogrosso dirigiu os holofotes para uma nova geração de compositores, ignorada pelos intérpretes consagrados, nomes feito Dan Nakawa, Vitor Pirralho, Dani Black, ou Rafael Rocha. Em Nu Com Minha Música ele passeia por gerações, gravou, por exemplo, Estranha Toada, de Martins, cantor e compositor de uma cena de jovens artistas, do Recife e Olinda, que fazem uma espécie de nova MPB. Ney recorre a Felipe  Rocha, de quem canta Boca. Que canta, aliás, pela segunda vez em disco. A primeira foi como convidado de Rafael Rocha (irmão do autor). Volta a Vitor Ramil, que tem gravado desde 2009, no álbum Beijo Bandido. Escolheu de Ramil, Noturno, lançada pelo autor em 2004, que acrescentou uma estrofe a pedido de Ney.

O repertório equilibra-se entre canções recentes e bastante manjadas, feito Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho, de 1974, uma das mais regravadas dos dois. O produtor em Gita foi Leandro Braga, que também toca piano nesta faixa, um arranjo diferente, porém uma versão que não acrescenta muito à música. A única dispensável do álbum. Ao contrário de Espumas ao Vento, de Accioly Neto, um clássico do repertório do forró contemporâneo, disseminada país afora por Fagner. Produzida também por Leandro Braga. Onde antes se ouvia sanfona na introdução, aqui há um piano, e o xote transmuda-se em balada pop romântica, uma bela recriação.

Cazuza confessou a Ney Matogrosso que a única música de que tinha inveja de não ter composto era Quase um Segundo (Herbert Vianna), hit dos Paralamas do Sucesso em 1988. No álbum Burguesia, de 1989, Cazuza a gravou, e Ney a grava agora, com produção e arranjo do guitarrista Ricardo Silveira. Nu com a Minha Música, a canção, é literalmente uma viagem de Caetano Veloso pelo interior paulista, uma regravação que integra as memórias afetivas de Ney Matogrosso, que vem circulando pelos interiores do país há quase 50 anos. Lançada no disco Outras Palavras, há 40 anos, Nu com a Minha Música teve poucas regravações, a última delas, em 2014, com Devendra Banhart, Rodrigo Amarante e Marisa Monte. Ney a canta mais lenta, a cai como luva na sua voz, hoje um pouco mais grave.

Em quase todos seus discos Ney Matogrosso apimenta o repertório com um pouco de malícia, aqui a pimenta é Faz um Carnaval Comigo, de Jade Baraldo e Pedro Luiz, que a lançaram, com Batman Zavareze, em 2019: “É boca com boca/eu deito, eu rolo/sou eu no seu colo/você na minha mão”.  Um dos melhores momentos do álbum é a citada Sei dos Caminhos, lançada por Alzira Espíndola há 30 anos, quando foi incluída na lista de Ney. Esta, e Se Não For Amor Eu Cegue, do disco Chão (2013) de Lenine tocaram pouco no rádio, para muitos é como se fossem inéditas. Sua Estupidez tem duas versões matadoras, do próprio Roberto Carlos (feita com Erasmo Carlos), e de Gal Costa (em F-a-t-a-l Gal a Todo Vapor, 1971), é mais uma que não funciona bem, por mais que Ney Matogrosso se afaste das versões citadas.

Impecável a interpretação de Mi Unicornio Azul, belíssima canção clássica do movimento cubano Nueva Trova, de Silvio Rodriguez, e gravada com Pablo Milanés. Uma letra metafórica que permite mais de uma leitura, a mais comum é de homoerotismo. Muito bom o arranjo com piano e cello do produtor Sacha Amback. Ele também produziu Estranha Toada, uma das faixas em que o cantor sobe a voz como nos velhos tempos. Em tempos outros, seria a música de trabalho do álbum, a que tocaria no rádio. (foto da capa: Marcos Hermes)

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