Sebastião Tapajós com Pedro dos Santos: virtuose e invenção

Na quilométrica discografia do violonista paraense Sebastião Tapajós (1943/2021), há dois álbuns gravados com o percussionista carioca Pedro dos Santos, ou Pedro Sorongo (o sorongo foi um ritmo que criou, vindo do samba e do batuque). São pouco conhecidos, raros, e ganharam reedições, em vinil, pelo selo inglês Mr.Bongo. Sebastião Tapajós/Pedro dos Santos Vol.1 e Vol.2, ambos de 1972, e lançados pelo selo argentino Trova, pelo qual Tapajós lançou mais três LPs. O violonista teve uma carreira internacional bem sucedida, tocava muito no exterior, provavelmente por isto sua morte, em outubro passado, não recebeu o destaque merecido.

Pedro dos Santos (1919/1993) foi um subestimado percussionista, um inventor de instrumentos e sons, não por acaso era chamado também de Pedro da Lua, por estar sempre envolto com experiências. Nascido em 1919 foi pracinha da FEB, e lutou na Segunda Guerra, na Itália. Compositor, começou a fornecer canções para cantores do rádio (Orlando Silva foi um desses), e a tocar com músicos como Jacob do Bandolim ou Severino Araújo. Nos anos 60 foi requisitado percussionista de estúdio, gravando com muita gente boa, Milton Nascimento, Roberto Ribeiro, Elis Regina, Clara Nunes, entre outros. Muito conhecido no meio artístico, Pedro dos Santos porém só gravou um disco solo, o cultuado Khrishnanda (1968, CBS, relançado em vinil pela Polysom em 2012).

Em 1968, Sebastião Tapajós, que incursionou pelas mais diversas searas musicais, foi influenciado pela onda do pop alternativo que vinha da Inglaterra e EUA, como resultado gravou o álbum Sebastião Tapajós e sua Guitarra Cósmica (1969, Forma), cujo repertório é aberto por Light My Fire (The Doors). Os arranjos de Mário Castro Neves, lembram os que foram criados para os tropicalistas. Um disco fora da curva entre os tantos que Sebastião gravou, assim como os dois com Pedro dos Santos, que poderiam ser um álbum duplo.

A principio fica difícil entender como dois estilos tão dispares convergem para um ponto em comum. O Vol.2 se inicia com Ganga, de Sebastião Tapajós, em que se tem impressão de que o violão apolíneo de Tapajós entrará em choque com a percussão dionisíaca de Pedro. Mas isto não acontece em nenhum dos discos. Pedro dos Santos sabe o trecho exato onde entrará com seus sons estranhos, tirados de instrumentos como o berimboca (berimbau de boca), o tamba, uma bateria construída com bambu (que deu o nome ao Tamba Trio).

 Os sons são sempre inusitados, podem ser de uma bateria de escola de samba, numa faixa, do Vol.2, com o título óbvio de Escola de Samba, ou um solo de pandeiro irrompendo em meio à execução de Samba do Avião (Tom Jobim). O repertório é composto por temas autorais, e clássicos da MPB, de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Vinicius, ou reinvenções de composições conhecidas, feito acontece em Sambaden, a recriação de um afro-samba de Baden e Vinicius. A percussão é mais presente no Vol.1. Em Despedida de Mangueira (Benedito Lacerda/Aldo Cabral), metade da faixa é tomada por um solo de percussão. Desse mesmo disco, a invenção se manifesta em Cântico da Água, faixa solo de Pedro dos Santos, que usa  a água como elemento percussivo, em algumas faixas, emprega a voz como instrumento (em Munganga, do Vol.1). Mas podem ser convencionais, no caso de Primavera (Carlos Lyra/Vinicius de Moraes), emoldurada por um arranjo de cordas (assinado por Mike Ribas).

Sebastião Tapajós/Pedro dos Santos Vol.1 e Vol.2 estão, felizmente, disponíveis nas plataformas de música para stream, mas também constam do catálogo da Mr.Bongo, por 26 libras, cada, precinho mais que salgado, mais ou menos 200 reais, no câmbio deste 30 de outubro de 2021 (sem impostos de importação).

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