The Rolling Stones, a banda mais misógina do rock and roll?

Os Rolling Stones sacaram Brown Sugar do repertório da turnê No Filter. A música é um dos hits mais conhecidos da banda. Ao jornal inglês NME, Keith Richards disse que as “irmãs” não entenderam que a música era um libelo contra o tráfico de escravos. Porém, não é exatamente isto que diz a letra: “Açúcar mascavo por que você é tão saborosa?/Açúcar mascavo, do jeito que uma garotinha deve ser/Como você dança tão bem?/como uma negra deve fazer”. Depois do “Black Lives Matter, não pega bem tal tipo de considerações. Keith, sempre politicamente incorreto, disse ao jornal que espera poder voltar a cantar a música no futuro. Brown Sugar foi um dos maiores sucessos de Sticky Fingers, álbum de 50 anos atrás, considerado um dos pontos altos da discografia do grupo.

Mas continua no repertório outra canção não menos misógina, Under My Thumb, cuja letra afirma que a garota, que antes quis ser a mandona, está agora debaixo do polegar do namorado, fazendo tudo o que ele deseja. Talvez continue no set-list porque a letra é menos direta: “Debaixo do meu polegar/está a gatinha siamesa/sob meu polegar, ela é o mais doce bichinho de estimação”. A canção é de 55 anos atrás, do álbum Aftermath, o primeiro autoral dos Stones. Mas Under My Thumb é até amena em relação a Stupid Girl, do mesmo disco. Diz-se que a letra é uma diatribe à ex-namorada de Mick Jagger, a supermodelo dos anos 60, Chrissie Shrimpton, que tentou o suicídio quando foi trocada por Marianne Faithfull. Uma das estrofes da canção: “A maneira como ela se refere aos outros/sem conhecera si mesma/ela é a coisa mais doentia deste mundo/olhe pra esta moça estúpida”. Quase no mesmo tom é Out of Time, igualmente de Aftermath, uma reprimenda a uma garota que infiel: ”Você não pode voltar e ser a primeira da fila/você está obsoleta, meu bem/meu pobre benzinho fora de moda/já lhe disse, meu bem, você já era”. Mick Jagger não se contentou e, no mesmo disco, fustigou Chrissie Shrimpton em mais uma canção, Yesterday’s Paper (Jornal de Ontem): “Quem quer saber de jornais de ontem/quem saber de garotas de ontem/quem quer jornais de ontem/ninguém neste mundo”.

Se alguém que irritar Mick Jagger é pedir pra ele falar sobre o álbum Between the Buttons, de 1967. Ele detesta o disco. Numa época em que competiam com os Beatles, os Stones quiseram fazer um Revolver, recheando as canções de overdubs, passando a noite num estúdio em Hollywood, em meio a mais uma turnê pelos EUA. Desse álbum são Let’s Spend The Night Together, e Ruby Tuesday, mas apenas na edição americana. As duas canções foram lançadas na Inglaterra como singles (compactos), e substituiram duas faixas misóginas, Please Go Home, e Backstreet Girl, esta segunda, impensável nos dias atuais. O tema  é “a outra”. Na letra, pede-se que ela não telefone pra casa do amante, não perturbe sua esposa, que se contente com o que ele lhe dá, que não queira ser parte do mundo dele, que se contente em ser a outra.

Mas até em machismo os Rolling Stones perdem para os Beatles. John Lennon detestava Run For Your Life, grosso modo, Corra Pra Salvar A Pele, do álbum Rubber, de 1965. Com motivos de sobra. A letra é uma explícita ameaça de feminicídio: “Prefiro ver você morta/do que com outro cara/melhor ter a cabeça no lugar, garotinha/senão não sei o que farei/melhor correr pra salvar a pele, garotinha/Enterre a cabeça na areia, garotinha/se te pego com outro, garotinha/será seu fim”.

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