Nelson Freire, nosso pianista maior: “Lisboa é o Rio de Janeiro que não mais existe”

Nelson Freire, falecido em 1º de novembro, foi um músico conhecido por poucos brasileiros, que fez o Brasil ser admirado por muitos estrangeiros, trocadilho à parte, num final de noite dessas botei pra tocar no Spotfy, Nelson Freire Plays Chopin, uma compilação de 20 peças do compositor polonês, lançado pela Warner Music em agosto de 2021. Freire toca como falava, fluente, mas sem altear a voz. Chopin era um dos seus compositores preferidos, mas ele preferia diversificar autores, do que ser um especialista em algum deles (embora o seja em autores do século 19). Um de seus concertos mais elogiados, que virou disco, aconteceu em Miami, em 13 de dezembro de 1984, em que tocou Mozart, Chopin, Debussy, Villa-Lobos, Albeniz Godowski e Rachmaninov.

Em 2019, quando foi a Lucerne, na Suiça, receber um prêmio pelo conjunto da obra, concedido pelo International Classical Music Awards (ICMA) ele concedeu um entrevista bastante franca à revista online da entidade. Alguns tópicos

VIDAS

– Me recordo com freqüência da infância. Penso muito no passado, mas em questão de música olho sempre à frente. Vivi várias vidas, eu diria que sete vidas diferentes, cada qual bem distinta, algumas com mudanças radicais, são uma soma de uma inteira existência, a minha. Uma só, mas dividida em sete partes

ESTUDAR

– Nunca gostei de estudar. Nem precisei. Sempre aprendi (partituras), na primeira leitura. Nunca estudei e sou preguiçoso quando se trata de estudar. Leio as partituras, aprendo o contexto e simplesmente toco. Às vezes as coisas me parecem muito difíceis. Mas adoro tocar piano.

VIRTUOSO

– Ser virtuoso me ajudou a resolver problemas. Desde pequeno fui uma criança prodígio, o resto veio naturalmente.

DISCOS

– Nunca ouço meus discos, porque acho que não vou gostar deles. Ouço os mais antigos. Se por acaso ouvi-los tocando no rádio, desligo imediatamente.

APRIMORAMENTO

– Não acho que esteja tocando melhor, toco diferente. Não se pode tocar melhor do que Rachmaninov, com aquela musicalidade, aquela personalidade.

PIANISTAS

– Não tem a ver com países, mas com épocas. Arrau, no fim, era mais alemão do que chileno, Guiomar (Novaes) tocava Chopin tão bem quanto o melhor pianista polonês. A coisa importante é experiência de vida, e hoje há poucas oportunidades de se viver uma vida que permita uma expressão musical natural. Pela minha própria experiência sei que sem esta vida não há música. E hoje não há tempo de se viver como outrora. Sou preguiçoso, o que é paradoxal, por conta de fazer tantas coisas, encontro tempo pra isso. Talvez por isso tenha sempre algo a dizer

BN

– A bossa nova é ótima

POLÍTICA

– Tudo o que está acontecendo no Brasil é triste. Não é o Brasil que eu amo. Esperemos que as coisas mudem. É muito problema, muita violência, muita miséria

LISBOA

– Recentemente passei a morar em Lisboa. Sou muito nostálgico e Lisboa é feito o Rio de Janeiro que não mais existe. Alem disso, em Portugal, o povo é muito amável, o que é cada vez mais raro de se ver. É só olhar os maus modos na França, em Paris onde também moro. É bonito, mas todo mundo estressado. Em Portugal é como se fosse em outra época.

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