As rádios de Campina Grande tocavam tudo menos Buddy Holly

Cresci conhecendo as músicas pelo rádio. Numa época em que morei na casa dos meus avós maternos, acordava com um programa que se chamava Manhã da Saudade, e tome Vicente Celestino, Orlando Silva, Francisco Alves, Araci de Almeida, Carlos Galhardo, Ataulfo Alves, 4 Ases e 1 Coringa.  Tinhas umas músicas estranhas, feito o samba Na Virada da Montanha (Lamartine Babo/Ary Barroso, 1935), com Francisco Alves: “A saudade vem chegando/a tristeza me acompanha/só porque, só porque/o meu amor morreu/na virada da montanha”. Não soube até hoje em que se inspiraram para esta morte na virada da montanha. Outra esquisita Era Porta Aberta, de Vicente Celestino, cantada pelo próprio. Misturava uma porta que não se fechava, com Jesus de Nazaré. A minha cabeça de criança pirava. Ainda mais com uma de Noel Rosa que, como diriam os portugueses, têm versos brutais: “Mas que mulher indigesta/merece/um tijolo/na testa”. Noel mesmo a gravou, em 1932. Poucos ousaram regravá-la.

Depois de programa nostálgico, rolava um de cantoria de viola, Retalhos do Sertão, não me lembro quais os repentistas que participavam, o programa começava quando eu tava indo pra aula. Me contam que na tertúlia do meu batismo, meu pai contratou dois violeiro de escol, um dele foi Otacílio Batista. Confesso que não me lembro. Quando voltava da escola, só encarava o dever de casa depois do programa Jovem Brasa, apresentado por Paulo Rogério, na Rádio Borborema. Esqueci de dizer, a casa dos meus avós ficava em, no bairro do Alto Branco, Campina Grande, onde nasci, embora more no Recife, desde que a água do mar era doce.

Esse Jovem Brasa tocava todas aquelas bandas da british invasion e as concorrentes americanas, Herman’s Hermits e Gary Lewis and The Playboys, Freddie and The Dreamers e The Five Americans, Box Tops e Lulu. Tinha, porém, um viés. Privilegiavam-se-grupos gringos que tinham versões bombadas no Brasil. The Hollies, com Bus Stop, original de Pensando Nela, imenso sucesso com os Golden Boys, ou There’s A Kind of Rush, da Herman’s Hermits, nas paradas com Carlos Gonzaga, rebatizada de Só Eu e Você.

Portanto não me recordo de escutar Bob Dylan, Jefferson Airplane, Beach Boys, The Byrds, The Rolling Stones, acho que apenas Satisfaction. Embora a abertura do programa fosse com I’m Down, Beatles tocava pouco, acho que por que rodava em todas as rádios.  Não tocava a primeira geração do rock. Portanto só conheci a música de Buddy Holly uns vinte anos depois da morte dele, num desastre aéreo em 1959. Me surpreendi, porque não soava como alguém dos anos 50, estava muito próximo dos Stones e Beatles dos 60. As melodias eram modernas, assim como a formação instrumental da banda, guitarra, guitarra base, baixo e bateria. Até os tempos atuais é o básico dos grupos de rock, com as múltiplas variações. Maybe Baby, de 1957, prenuncia uma sequência de acordes exaustivamente empregada no rock.

Nutri por um bom tempo, visitar Lubbock, no Texas, terra natal de Buddy Holly. Anos atrás, soube que Cláudio Castanha, colega de redação, da editoria de economia, iria a Lubbock para um pauta. Pedi que me comprasse uma t-shirt de Buddy Holly. Não sabia de quem se tratava, mas quando chegou à cidade, o roqueiro estava por toda parte. Ele se interessou, e quis conhecer a casa onde o cara morava.

Foi até o bairro e saiu procurando a rua da casa de Buddy Holly. Numa garagem rolava um ensaio de uma bandinha de músicos bem jovens. Nosso amigo lhes perguntou se  podiam lhe informar onde ficava a casa de Buddy Holly. Um dos carinhas o orientou: pegue à direita, siga em frente, e no final pegue à esquerda. Ele assim procedeu, e saiu em frente ao portão do cemitério de Lubbock.

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