O forró vai se tornar patrimônio imaterial, ótimo. Mas o forró fuleiragem também entra nesta história?

O registro do Forró como patrimônio Cultural do Brasil, mais exatamente, “matrizes tradicionais do forró”, “proposta da Associação Balaio do Nordeste e pelo Fórum Forró de Raiz da Paraíba, recebeu endosso da Superintendência do Iphan no estado, além de um abaixo-assinado com participação de 423 forrozeiros de todo o país”.

O texto entre aspas é reprodução do jornal carioca O Globo sobre a abertura do processo neste sentido pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional e Artístico Nacional, o Iphan, na sexta, 5 de novembro. Mas é preciso distinguir forró de forró. No final dos anos 80, surgiram em Fortaleza bandas de lambada estilizada, inicialmente rotuladas de oxente music, que logo passaram a se vender como de “forró”. Não por acaso uma das associações paraibanas citadas acima se denomina Fórum Forró de Raiz da Paraíba.

Em outros tempos, este de “raiz” não seria compreendido, aliás, nem estaria no nome da entidade. As bandas espalharam do Ceará para todo o Nordeste, enquanto tomaram emprestado a lambada do grupo multinacional Kaoma (formado por produtores franceses, e de um único sucesso internacional, Lambada, ou Llorando se Fue), as bandas adotaram os cacoetes aeróbicos da axé music. “Joga as mãos pro ar”, “Tira os pés do chão”, “Sacode a bundinha”. Uma fórmula bem sucedida e disseminada por redes de Emissoras de rádio.

A primeira vez em que fui a Exu, cidade natal de Luiz Gonzaga, portanto também do forró. Fui a Exu pra uma matéria sobre o aniversário de 90 anos do Rei do Baião. Na praça principal, muitos estudantes, num alto-falante, ou num som potente de uma camionete, só tocava bandas de fuleiragem. Não escutei uma única vez Luiz Gonzaga. As bandas dominaram o Nordeste inteiro. Coincidentemente, quando uma geração de forrozeiros, de Petrúcio Amorim, Maciel Melo, Flávio José, Flavio Leandro, Targino Gondim, Santanna, Irah Caldeira, Nádia Maia, Walkirya, Genaro, entre outros, livrava o gênero da sazonalidade. Passaram a fazer sucesso e shows o ano inteiro.

Mas as bandas invadiram também os grandes arraiais juninos de Pernambuco, Paraíba e Bahia, como usam um “forró” antes do nome da banda quando se anunciam, os jovens, seu maior publico, passou achar que aquilo era o forró. Nos anos 2000, um hit regional, da Calcinha Preta, Você Não Vale Nada (Dorgival Dantas), estourou na trilha da novela das oito, Caminhos das Índias (2009), e atiçou a cobiça das gravadoras, sobretudo da Som Livre (recentemente adquirida pela Sony Music), da indústria fonográfica, a de maior poder de fogo, porque vinculava seus contratados à TV Globo.

Fui ao Rio em 2012 quando preparava um caderno especial, no JC, sobre o centenário de Luiz Gonzaga. No Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristovão, uma banda de fuleiragem tocava num dos palcos, nos quiosques que vendiam produtos nordestinos, cordel, xilogravuras, os discos eram do forró fuleiragem. No Sudeste forró é Barões da Pisadinha, vocalistas que deixaram as bandas, depois que Wesley Safadão deixou o Garota Safada e se deu bem.

Aqui no Nordeste também. Há uma geração que cresceu com as bandas e já comparecem à festa Forró das Antigas, que reúne pioneiras na fuleiragem, Mastruz Com Leite, Capim Com Mel, Gaviões do Forró, Limão com Mel et caterva. Emblemático que o ministro do turismo, o que toca sanfona, tenha produzido uma banda bem sucedida, a Brucelose.

Este “forró” também será beneficiado? Vai se tornar patrimônio cultural do país? Não custa nada perguntar. (na foto Luiz Gonzaga, Marinês, Pedro Sertanejo, Abdias. Fonte: forróemvinil.com)

6 comentários em “O forró vai se tornar patrimônio imaterial, ótimo. Mas o forró fuleiragem também entra nesta história?

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  1. Ótimo texto, como quase todos os que se publicam aqui e que eu acompanhava no tempo do JC impresso.

    Teles, falando em JC, porque eles optaram em reposicionar (para baixo) uma área em que a publicação tinha tanto destaque, que era a cultural?

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  2. Infelizmente no própro São João que era algo “tradicional”, acabou abrindo portas para outro gêneros musicais como o axé músic, sertanejo universitário, funk, arrocha, pagode etc… isso acabou tirando a tradição pelos próprios contratantes infelizmente!

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