Pedro Sá estreia em disco solo inspirado em João Gilberto

A música atual é consumida em nichos que se ignoram. Muita gente só tomou conhecimento da existência de Marília Mendonça depois de sua trágica, e lamentável, morte. Os que consumem Marília não sabem de um guitarrista chamado Pedro Sá, que lançou recentemente o primeiro álbum solo, Um, o título. Sá não é nenhum novato. Só dez anos foram passados com a banda Cê, formada também por Marcelo Callado (bateria), e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo, teclados), que gravou três discos com Caetano Veloso, Cê (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012), e fez as respectivas turnês dos álbuns, dos quais ele teve papel ativo no primeiro. Antes, Pedro Sá integrou grupos, a banda indie As Mulheres Q Dizem Sim, que ficou restrita ao Sudeste, e a Orquestra Imperial, esta mais viajada.

Sua estreia solo é um disco inspirado no álbum João Gilberto (conhecido como Álbum Branco), de 1973, produzido por Wendy Carlos. Ela é lenda da música eletrônica, trans pioneira, começou a carreira assinando-se como Walter Carlos, mas já se vestindo como mulher. Foi exatamente em 1973, que lançou o primeiro álbum como Wendy Carlos.  João Gilberto, o disco, certamente, tem influência da produção de Wendy, uma perfeccionista, que não permite que se relancem seus discos, inclusive nas plataformas de stream. É provável que Pedro Sá tenha s influenciado pela sonoridade que Wendy imprimiu ao álbum de João.

Mas ele traça sua própria viagem. Abre o repertório com Colapso, com a guitarra ameaçando cair na zoeira para, na faixa seguinte, Joá, ir de bossa nova, voz e violão. Em Um as timbragens da guitarra de Pedro Sá variam muito. A faixa Pare de Correr, está mais John Cale do que para João Gilberto. Ele vai intercalando guitarra e voz e violão, mas faz sua própria bossa, tanto em letra quanto no compasso da canção, a faixa Um Conselho vai até um certo ponto com um violão maneira, mas então irrompe a guitarra do meio para o fim. O óbvio aqui é o inesperado.

Um é mais um trabalho impulsionado pelo isolamento social, embora tenha composição que a anteceda em quatro anos. Dia é o título da faixa mais antiga, escrita em 2016, quando arriscou as primeiras composições, sem saber que caminho elas tomariam. Curiosamente, Dia, tem uma segunda parte em que lembra, no toque da guitarra, o clima de Cê.  Aliás, o álbum poderia ser batizado de Pedro Sá + 3. A turma do +2 é sua parceira em algumas canções.

O +2, refrescando a memória, era o trio Moreno, Kassin e Domenico Lancelotti. A cada disco davam o nome de um deles, com o + 2.  Pare de Correr foi feita com Domenico, Madrugada Acordada, com Moreno, e Rota de Fuga, com Kassin. As demais oito faixas são autorais. O álbum termina, com Mormaço, em que a guitarra cai na zoeira apenas insinuada na faixa de abertura.

Pedro Sá, em entrevista ao Monkeybuzz (monkeybuzz.com) revelou que além de João Gilberto, o paisagista Burle Marx também foi influência no disco. As fotos de divulgação foram feitas no jardim da casa dos pais de Pedro, obra de Burle Marx e, claro, não se permanece incólume à paisagem carioca. Foi ela que o inspirou a compor Dia, e ilustra, com o Morro Dois Irmãos, a capa do álbum (em foto do próprio artista), como um cartão postal.

Um disco instigante, em que se vai tendo surpresas, e redescobrindo também paisagens sonoras. O samba canção Há Um tem letra com algo de Cartola, Nelson Cavaquinho, porém com interpretação que desconstrói o gênero, mais ou menos, como já o fez Rômulo Fróes. Um tem selo da Balaclava Records.

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