Repente torna-se Patrimônio Imaterial, mas repentistas são ilustres desconhecidos nas grandes cidades do Nordeste

“Repente é registrado pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil”, anuncia o boletim da Fundarpe. Confesso que me surpreendi. Pensava que o repente já havia recebido a honraria há muito tempo, pela importância e influência na cultura do país (muito na música popular brasileira). O título vai encontrar a cantoria de viola como uma manifestação quase underground. Há muito tempo não acontece festival de cantoria no Recife. As cantorias de pé de parede, bem mais interessantes, rolam pela periferia, e muito mal divulgadas, pelos próprios cantadores, e quem promove.

Houve época em que o governo do estado produzia um festival de cantadores que passava por São Paulo e Rio. Fiz a cobertura de uma dessas edições, depois foram sumindo, acho que o último a que assisti foi no Teatro de Santa Isabel, produzido pela empresa de Geraldo Freire, salvo engano.

Durante dez anos, a jornalista Roberta Clarissa apresentou o programa A Voz do Sertão, um dos mais longevos do gênero no Recife. Foi ao ar parte na Rádio Universitária AM, parte na Rádio Folha FM, mas saiu do ar tem uns oito anos, ou mais. Os repentistas Edmilson Ferreira e Antônio Lisboa, em 2019, iniciaram um programa de cantoria de viola na Rádio Folha, o Quinta do Repente, que ia ao ar, às quintas-feiras, a partir das 17h. Escrevi “ia ao ar”, porque não sei se continuam.

Quando se fala em poesia oral quase sempre é cordel. Turista compra cordel, e tira fotos no em Olinda ou na praia de Boa Viagem com dupla de repentistas de improviso decorado, achando que foi apresentado a poesia oral viva do Nordeste, enquanto os grandes cantadores vivem à margem das produções culturais oficiais, e de produtores privados.

As novas gerações, pelo menos da capital, sabem alguma coisa da poesia do Pajeú por artistas jovens, como os do grupo Em Canto e Poesia, cujo integrantes vêm de uma nobre linhagem de cantadores, Antonio Marinho, os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio, e Jó Patriota,

Por que não cantadores em desafios nos domingos do Bairro do Recife, na pracinha do Arsenal? Por que os poucos bares freqüentáveis ali nos arredores da Malakof não ousam promover cantorias de pé de parede, ao menos, uma vez por mês?

Não sei em que o título do Iphan, na prática, vai interferir na cantoria de viola. Independente dele, o repente vai se renovando, enquanto a geração de Ivanildo Vila Nova que continua na viola aos 76 anos, envelheceu, e nos últimos anos sofreu baixas de três grandes mestres, Valdir Teles, Louro Branco e João Paraibano. Novos valores vão surgindo no repente, mesmo que alguns se bandeiem para o forró fuleiragem, que é onde se ganha dinheiro, ao contrário da embolada, que está praticamente extinta.

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