Crônica – O homem que viu o mar pela primeira vez

“O homem que veio pela primeira vez à praia não se arrisca a dar um passo. Nem se atreve, nem pode. Impraticável. Impossível atravessar por dentro, por baixo ou por cima. Agora é impossível recuar também”. A multidão que foi à praia hoje, à altura da casa do brigadeiro, em Boa Viagem, trouxe-me de volta o conto O Homem que Foi Pela Primeira Vez à Praia, de um genial português chamado Santos Fernando (1927/1975) que escrevia textos de humor lírico e surrealistas. Quanto a mim, não me arrisquei nem a descer à praia. Tomei um latinha na calçada, próximo à barraca do galego, cubando o movimento. Muita gente. Quase não se via a areia mar, encoberta pelas sombrinhas.

“O homem que veio pela primeira vez à praia, apenas vê gente, sempre gente. Cada vez mais gente. Um sujeito magrinho, para ocupar pouco espaço, enfia-lhe um cotovelo nas costas.

– Vá tentando furar, diz

– Não posso – manifesta o homem que veio pela primeira vez à praia – não estou habituado – e confessa: é a primeira vez que venho à praia. O sujeito magrinho sente uma grande piedade pelo pobre. Piedade e inveja. Pensa: “Se eu pudesse era a última”. Foi isso que pensei, entornando o latão. Escutando a algaravia de sofrências, sertanejos, pagodeiros, rappers, MCs, que fluía de cada sombrinha, todos trazem seus aparelhos de som e escutam o que lhes apetece.

“- Onde é o mar, senhor?  – Ali, aponta o sujeito magrinho com o queixo. O homem que veio pela primeira vez à praia olha naquela direção, mas só vê cabeças, milhares de cabeças”. Milhares de cabeça, vejo eu também. Um rapaz a quem encomendaram um peixe frito não sabe a quem entregá-lo. Uma moça de biquíni, ao lado de um poste, no calçadão, refuta as cantadas, esclarecendo: “Perdi minha mãe. Liguei pro celular dela e marquei aqui”.

“O homem que veio pela primeira vez à praia estica o pescoço, tenta descortinar algo que não sejam cabeças. Mas só há cabeças”. Em Boa Viagem nem cabeças, só sombrinhas, feito enormes girassóis multicoloridos. Tanta gente, que os camelôs desistem, não há como caminhar entre a multidão. Termino meu latão, pago, e me distancio da praia.

“O homem que veio pela primeira vez à praia, olha e vê uma gota de suor. – O mar – exclama ele embevecido – Julguei que fosse maior. Despe-se e mergulha”.

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