Rozenbac capricha no ecletismo e no improvável em Passatempo, o segundo álbum

“O dono do Bar Central gravou um disco”. Esta frase certamente está sendo proferida na Rua Mamede Simões, rua de bares, o trecho entre a Saudade e a União, O dono do Bar Central, o mais cult do Recife, André Rozenberg, toca o projeto musical Rozenbac, com o produtor e músico Bactéria (Mundo Livre S/A, Otto e outros). O Rozenbac lançou o segundo álbum, dia 12 de novembro, nas principais plataformas de stream, Passatempo, o título.

No Brasil tende-se a querer que a arte seja criada em compartimentos estanques. Aceitam-se com dificuldade gente de teatro, ou cinema, que grava discos, ou artista da música que escreve romance. O Chico Buarque escritor só recentemente deixou de ser tido como um cantor de música popular em seara alheia. Rozenberg é de acordo de que algumas pessoas podem estranhar o fato de ele cantar, compor e gravar: “Acho que todos temos a capacidade de cantar, de criar. O fato de ser dono de bar, não me incapacita – comenta com sua conhecida tranquilidade – Entre os amigos músicos com quem circulo não sinto rejeição. Quanto ao público, aprendi com Jorge de Altinho, a não ligar se o povo falar” (refere-se a Nem Ligue, sucesso do forrozeiro Jorge de Altinho, em 1987)

Embora pretenda que as pessoas escutem seu disco, o objetivo de fazê-lo é pela diversão de gravar suas composições com um grupo de gente amiga Um trabalhado lapidado aos poucos, iniciado em 2015 e concluído em 2021. Das onze faixas, quatro foram antecipadas em clipes. Jadson Vale, o Bactéria, é o maestro do álbum. É ele que assina a produção e convoca a maioria dos músicos que toca no disco.

André e Bactéria conceberam o projeto Rozenbac há 12 anos, o conceito inicial continua o mesmo, não ter prazo, nem pressa: “Um trabalho que não segue regras. Basicamente, é uma reunião de amigos pra fazer música, em sessões de gravação espontâneas, sem arranjos pré concebidos, só a música e algumas ideias. Em geral, sessões que terminam em celebração. Mas como comentei, antes de ser dono de bar, sou músico. Desde a adolescência componho. Gravo hoje composições do tempo em que era jornalista, de antes de ser dono de bar, e outras que fiz recentemente”.

A banda base do álbum é formada por Thiago Brandão (guitarra e bateria), Magno Brito (contrabaixo), André Malê, Toca Ogan e Marcos Matias (percussão), Bactéria (teclados), pelo tempo que levou para ser completado, há um revezamento de músicos. Na faixa título (parceria de Andre Rozenberg com Leopoldo Nunes, entram os gêmeos Meira (da Eddie), Rob (baixo), Kiko (bateria), mais Renato Blues (guitarra, e Carlos Peres (percussão e efeito). A citação completa dos músicos e técnicos é extensa, com gravações no Recife, Olinda, Rio, Suécia. Logo, revezam-se também os estúdios, e os que assinam a mixagem e masterização.

MÚSICA

Lamentação, a faixa, inicial é uma balada pop, cuja melodia é pretexto para a letra, uma poética na linha de Lula Côrtes e Cazuza (curiosamente, de línguas presas): “Eu faço hora, derivo no tempo/eu chamo pra missa/ eu grito poesias/eu, filho do carbono e do amoníaco/bato meu tambor/eu assalto com a arma que você me dá/escrevo com seu beabá/germino na sua podridão/vou derrubar seu muro/com a minha lamentação”. A variedade se insinua na faixa seguinte, a que dá nome ao disco, Passatempo, um ska, cerzido pelo teclado de Bactéria, e colorido com o dueto de André Rozenberg e Márcia Lima, voz da cena hip hop olindense. Uma faixa que tem cara de domingueira na Marim dos Caetés.

Mas como? Um disco pop que fecha com o poema Canção do Tamoio, do maranhense Gonçalves Dias (1823/1864)? Pois é, O poeta virou parceiro póstumo de Bactéria e André Rozenberg, uma oportuna alusão à problemática dos indígenas da Amazônia.

 Rozenberg vai além no improvável. Rozenberg consegue cantar, em Ode Às galinhas, o famigerado carro do ovo, cujo refrão é o jingle com que inferniza as ruas da cidade: Economize comprando/compre economizando”, perenizado num bem humorado samba com uma balanço à Ben Jor, acrescido de metais e palhetas. Por sinal, é a faixa que antecede ao épico poema de Gonçalves Dias. Ecletismo permeia o álbum, com todas as faixas assinadas por André Rozenberg, abrindo espaço para parcerias. Em Todo Mundo, três parceiros, Bactéria, Thiago Brandão e Magno Brito. A faixa Moderno, uma balada com sabor de anos 80, lembra a linha melódica de Herbert Vianna, daquelas canções que se escuta na programação noturna das FMs. Esta é pra tocar no rádio. Com participação de Bella Schneider, Bailarina Cósmica, um dos destaques do disco. A Canção do Tamoio fecha bem o repertório, com uma roupagem folk, enviesada para a música de câmera, reunindo com a banda, o piano de Jô do Vale, o cello de João Araújo, viola (e guitarra) de Gabriel Melo. O dono do Bar Central fez um belo disco.  

(foto: Otávio de Souza)

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