Vinil tornou-se alvo da pirataria de discos

A falsificação de LPs está preocupando o mercado de disco de vinil. É uma contravenção retrô, que começou, para valer, nos anos 60. Mas foi muito comum nos anos 40 e 50, sobretudo nos 78 rotações de blues. Os cinco primeiros 78 de Elvis Presley tiveram cópias falsas. Não confundir o disco falsificado com o bootleg, aqui chamado de pirata. Discos de nomes top como Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Led Zeppelin, com conteúdo proveniente de shows, programas de TV e rádio, e de tapes furtados de estúdios, com sobras, demos, versões alternativas, até conversa ou assovios  As fitas surrupiadas das sessões de Let it Be inauguraram a prática, em1970.

O LP falsificado é cópia de um disco oficialmente lançado. Como quase tudo na música popular dos últimos 60 anos, teve os Beatles na história. No caso, o LP Introducing… The Beatles, de 1963, só lançado nos Estados Unidos, pela gravadora Vee-Jay, rapidamente retirado do catálogo, e reposto nas lojas em cópias falsificadas, que venderam muito mais do que o original.

No Brasil a pirataria, se existiu, foi moderada nessa época. Já o bootleg, nem tanto. Nos anos 80 produziram-se álbuns de Beatles, Rolling Stones, U2, em vinil de terceira, mas a PF logo chegou junto. A pirataria rolou mais em cassetes toscos vendidos na rua. Com a Internet e sites de trocas de arquivos em MP3 , a pirataria quase acaba com a indústria fonográfica, mas esta conseguiu criar anticorpos, que eliminaram o download de discos e DVDs gratuitamente, e as carrocinhas de música pirateada que infestavam as ruas do país inteiro. Com tudo disponível nas plataformas de stream, quase ninguém se preocupa em acumular discos ou vídeos em seus computadores.
Com o culto ao vinil, os bucaneiros botaram a usina pra moer novamente. Os países europeus que já integraram o bloco soviético recebem encomendas de LPs sem questionar do que se trata. A República Tcheca tem seis bem equipadas fábricas de prensar disco de vinil. Uma delas chama-se afoitamente Pirate Press Europe. Quando o LP estava ressurgindo, a tcheca GZ Media era a única fábrica de vinil operando na Europa. Localizada na vila de Loděnice,  a 26 quilômetros de Praga, é dirigida por um cara chamado Zdeněk Pelc, que transformou uma decadente empresa estatal num negocio de 76 milhões de euros, com uma produção de 25 milhões de discos por ano, com alto padrão de qualidade.
Atualmente prensa-se vinil em quase todos os países. Os piratas visam um mercado bem particular e lucrativo: o do colecionador de raridades. LPs nunca relançados em CD, nem nas plataformas digitais, que trocam de mãos por muito dinheiro. No Brasil são muito procurados álbuns de orquestras dos anos 50 e 60, intérpretes esquecidos, Elza Laranjeira, Helena de Lima, Luiz Cláudio, ou raridades cult, dos anos 60 e 70. A pirataria atende a essa freguesia, só que em reedições de vinil também falsas, portanto, de qualidade sonora ruim  Muitas vezes a origem das gravações vem de arquivos baixados em sites, ou blogs que disponibilizam discos em MP3. Em lugar de vinil, um tipo de plástico, geralmente colorido. Claro, prensados em algum pé de escada, não em empresas de responsa feito a supracitada GZ Media. Isto posto, quando se deparar com um exemplar de uma relíquia em vinil, confira se é mesmo em vinil. 

THE BEATLES E A VEE-JAY

Em 1963, The Beatles tornara-se a sensação da música inglesa, com discos lançados pela EMI/Parlophone, cujo catálogo era distribuído nos Estados Unidos pela Capitol Records. O pessoal da EMI ofereceu os Beatles a sua subsidiaria americana, a Capitol, que não mostrou interesse. A empresa que distribuía os produtos da EMI nos EUA cedeu os direitos de lançamento do grupo no país para uma gravadora pequena, a Vee-Jay Records, nascida em Gary, Indiana, e depois reinstalada em Chicago. Foi a primeira empresa da indústria fonográfica americana presidida por um negro, Ewart Abner.

O catálogo da VJ era em sua maioria de blues, soul e rhythm & blues. O sucesso com The Four Season, o primeiro grupo branco da gravadora, certamente foi um incentivo para acrescentar os Beatles no seu catálogo. O que receberam da EMI foi o álbum Please Please Me, antecipado por compactos com From Me To You e Please Please, que passaram despercebidas. A VJ programou-se para lançar o álbum de estreia dos Beatles em junho de 1963, mas o presidente da gravadora, deu um desfalque para pagar dívidas de jogo, e o LP só chegou às lojas, em fevereiro, dez dias depois do álbum Meet The Beatles, o disco que abriu caminho para a explosão do quarteto.

Please Please Me tem 14 faixas, mas a norma então era uma dúzia, extraíram duas faixas, Please Please Me e Ask Me Why, e mudaram o nome do álbum para Introducing … The Beatles.  Deram sorte. Em março os dois LPs no topo do paradão pop da Billboard eram Meet The Beatles e Introducing … The Beatles. A EMI tentou impedir que continuasse com os direitos à música do Fab Four. Chegaram a um acerto. A VJ manteria os direitos até outubro de 1964. Mas fabricou três versões diferentes do álbum, que se tornaram item de colecionadores, e uma mina de ouro para os falsificadores.

A VJ só recebeu o fotolito da capa. Tiveram que inventar a contracapa. Uma das versões tem a contracapa com capinhas de discos lançados pela gravadora. Outra versão tem a capa inteiramente branca, sem nada impresso nessa. Quando foram prensar o álbum, um técnico de som achou que o “One, two, three, four” com que Paul McCartney abre I Saw Her Standing There foi uma falha da fita, e apagou. Mas falhou, porque deixou o “four”. Parte de Please Please Me foi usada para um LP intitulado The Beatles vs The Four Seasons. Na refrega judicial a VJ foi proibida de usar Love me Do e P.S I Love You, cujos direitos estavam com outra editora. A VJ reeditou o állbum com Ask Me Why e Please Please Me.

Todos estes detalhes, feito uma contracapa com Paul e George com os nomes trocados, tornaram os discos dos Beatles com selo da VJ supervaliosos. Os falsificadores deitaram e rolaram. Mas tornaram fácil identificá-los. Em algumas edições a foto de George Harrison na capa tem sombra, noutras não. Quase todos tem o “Stereophonic” na capa, quando quase todos os LPs da VJ foram lançados em mono. Ironicamente, até os álbuns falsificados tornaram raridades, Ou seja, tem cópias fakes de discos dos Beatles falsificados em 1964.

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