Laís de Assis lança disco conceitual de viola nordestina

Bastante usada no Sudeste e Centro-Oeste, no Nordeste a viola é tradicionalmente associada ao repente, mas não como instrumento de acompanhamento. Para os repentistas, a viola é um apoio ao improviso, como já foi a rabeca. Tocam um intermezzo, enquanto buscam a inspiração para os próximos versos. Foi baseado nesse intermezzo que Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira criaram a música Baião que desaguou num gênero. A viola desviou-se um pouco da cantoria, quando o recifense Heraldo do Monte integrou, entre 1967 e 1968, o Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Airto Moreira e Théo de Barros), e estendeu-lhe os limites.

 Poucos anos mais tarde, Fernando Filizola trocou a guitarra, dos Silver Jets, pela viola no Quinteto Violado. Muito garoto da época, 1972, adotou a viola (e a craviola), influenciado pelo QV. Heraldo do Monte não deixaria a viola de lado. Em 2000, lançou um disco fundamental, Viola Nordestina. Comparável a esse álbum é Convertido, primeiro solo de Adelmo Arcoverde, de 2013.

 A poesia oral sertaneja foi caindo na graça dos músicos, e mais gente pegando na viola, entre os quais, Siba Veloso. A grande maioria de marmanjo. Uma das mulheres a se destacar como violeira foi Helena Meirelles (1924/2005), do Mato Grosso do Sul que, no entanto, só estreou em disco aos 67 anos. Agora é a pernambucana Laís de Assis que adentra a área da viola, com o álbum Ressemântica (projeto aprovado em edital do Funcultura), depois de lançar uma trinca de singles.

E chega com uma bagagem invejável: é formada em viola de dez cordas (2018) e violão popular (2013) pelo Conservatório Pernambucano de Música. Foi aluna do citado professor e mestre Adelmo Arcoverde. É graduada em Música Licenciatura pela UFPE (2016), mestre em etnomusicologia pela UFPB (2018). Acrescente-se ao currículo, a passagem por festivais pelo Brasil e Portugal, encarando públicos tão diversos quanto o do Rec-Beat (Recife), Festival Cordas World Music, no Açores, Portugal, o Duos (Recife), ou SESC Jazz (São Paulo), além de ter integrado o coletivo feminino A Dita Curva. 

Mas Ressemântica não é um pretexto para a violeira expor seus conhecimentos e habilidades com o instrumento. É um disco conceitual, que traz para junto da viola dinâmica, com suas quatro bocas no bojo, que lhe dão uma sonoridade peculiar, a poesia, sua companheira de muita poeira e estrada. A primeira parte é extraída do solo, das origens da gente com vozes de mulheres da aldeia Tuxá. Uma abertura com quatro temas, Coragem, Entre Luas e Aurora, Mãe d’Água e Centelha e Terra Vermelha. Com participações de Renata Rosa, e Gilú Amaral.

A jornada prossegue, com a segunda parte refletindo sobre a adaptação à urbe. Com mais cinco composições, Morando, Cortando Caminho, Frevo Para Um Carnaval Que Não Passou, Ponteada, e A Dama de Espadas, este último tema composto por Adelmo Arcoverde, que participa da faixa. Assim como o trombonista Nilsinho Amarante está em Frevo Para Um Carnaval Que Não Passou. Raridade, uma viola no frevo.

A parte final é o procurar entender o ressignificado das mudanças, o que une o passado ao presente, e que trilhas rumar para levar a experiência à frente. Cada trecho da jornada tem intervenções de Graça Nascimento, poeta de Canhotinho, no Agreste Meridional do estado. Laís de Assis toca em trio, numa formação pouco comum, com a percussão de Johann Brehmer, e a tuba de Alex Santana.

 Laís é também compositora, o disco é quase todo autoral (com algumas parcerias), e não se restringe ao que se costuma escutar na viola nordestina, ou mesmo na viola de outros centros, em que os músicos se apegam ao regionalismo, feito o grande violeiro mineiro Chico Lobo, ou no ecletismo do paulista Ricardo Vignini, que vai da música caipira mais raiz, ao rock and roll. Laís de Assis, faz música com forte sotaque nordestino, mas explora a sonoridade peculiar da viola dinâmica, em temas como Terra Vermelha (com percussão de Gilú Amaral), ou em Cortando Caminho, no diálogo com a rabeca de Renata Rosa em Entre Lua e Auroras, e no solo de Ressemântica, em que o diálogo é com a tuba de Santana, um tema que se aproxima do experimental.

O álbum traz 13 faixas, e foi produzido por Yuri Queiroga, parceiro em Será Sina (em que entra também Graça Nascimento), e em Uma Carta Para A Saudade, que encerra o álbum, que tem capa assinada por Karina Freitas. O disco está disponível nas plataformas digitais desde 26 de novembro.

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