Chama completa 40 anos com regravação de João Fênix e Joanna, pela Biscoito Fino

Na terça-feira, 7 de dezembro, o cantor recifense João Fênix e a cantora carioca Joanna lançam uma nova versão de Chama, assinada por dois autores igualmente recifenses, Aristides Guimarães e Geraldo Amaral. Chama, um dos maiores sucessos de Joanna, foi lançada há 40 anos, e deu título ao seu álbum de 1981. João Fênix incluiu Chama no roteiro do show do álbum Boca Não Tem Nome (2018), por sugestão do ex-deputado Jean Wyllis, que também sugeriu o dueto com Joanna, que Fênix conheceu em janeiro de 2020. Gravaram juntos em março, e surgiu a ideia de um disco inteiro de duetos. Porém naquele mês a pandemia tomou conta do planeta.

O reencontro só aconteceu em dezembro de 2020, mas a pandemia recrudesceu, e João Fênix optou pelo possível em tal panorama, um disco de voz e piano, Gotas de Sangue, lançado em julho de 2021. Um ano depois da gravação do áudio em estúdio, Chama ganhou um clipe, e chega ao público com o prestigiado selo da Biscoito Fino, com arranjo do maestro Jaime Alem

LABORATÓRIO DE SONS ESTRANHOS

Aristides Guimarães e Geraldo Amaral participaram do pouco conhecido tropicalismo à pernambucana, de 1968, que teve até manifesto assinado, no Bar do Alves, na Encruzilhada, por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Amaral tocava contrabaixo em Os Bambinos (cuja guitarra solo era a de Robertinho do Recife), enquanto Aristides Guimarães desconcertava o coro dos contentes com o Laboratório de Sons Estranhos, ou LSE, que pintou e bordou na capital pernambucana e no Rio de Janeiro. O LSE realizou uma pequena e memorável temporada de espetáculos de vanguarda no Recife do final em 1970, 2001 – O Tempo e o Som, um espetáculo multimídia, com influência dos Mutantes, de quem Aristides Guimarães assistiu ao show O Planeta dos Mutantes no Rio, do qual participou involuntariamente. Estava na plateia e foi escolhido por Rita Lee para dançar com ela no palco. Aproveitou e fez uma entrevista com Rita Lee (fotografada por Marco Polo, que depois seria vocalista do Ave Sangria), e publicada no caderno de cultura do Jornal do Commercio.

No Recife, o 2001 – O Tempo e o Som foi apresentado na quadra da AABB, no auditório do Colégio Damas, na sede do Sport Club, e terminou, apoteótico, no Teatro de Santa Isabel, com muito som, e projeção de imagens, a parte visual era feita por Daniel Maia (conseguiu-se com o consulado americano, imagens dos astronautas da Apolo XI, na lua). O LSE promovia happenings, com o público e os artista misturando-se no palco. Infelizmente ficaram sem registro. Aristides conta que chegaram a gravar num estúdio no Rio, mas o tape se perdeu.

 Aristides Guimarães foi para o Rio, onde começou uma carreira solo promissora. Mas sem interesse pelo estrelato. “Aristides Guimarães tem 24 anos, e dois metros de altura. É uma figura meio mística, falando muito em vanguarda, e em utilizar todas as dimensões do som e todos os recursos da interpretação. Com ele fazem parte do LSE Andréia, de 18 anos, que foi do Grupo Mercado, e Maurício, encarregado dos arranjos e antigo integrante do Momento-4”. Trecho de um perfil publicado no Jornal do Brasil. O “encarregado dos arranjos! é Mauricio Maestro, um dos fundadores do Boca Livre

. Aristides teve bastante exposição na imprensa, sobretudo quando ganhou, em 1971, o disputado festival de música popular de Cataguases, com Gás Paralisante, em parceria com José Carlos Capinam, que pagava o mais polpudo premio em dinheiro entre os festivais da época.

CHAMA

Mas como um músico transgressor, que na época do desbunde habitava o universo de Jards Macalé, Gal Costa, estoura com uma balada romântica na voz de Joanna? Ele morava em Pedra de Guaratiba, uma praia, na Zona Oeste do Rio, e um dia foi visitar Claudio Savietto, ator, que estava para gravar um disco, e lhe disse que o produtor da gravadora queria uma música com um clima à Roberto Carlos. “Já fui pensando na música no ônibus de volta. Cheguei em casa Geraldo Amaral estava, expliquei a ele. Ele pegou o violão, comecei a cantar, ele já harmonizando, eu fiz uma frase musical já com letra, Geraldo fez outra, foi, na verdade, uma canção em que letra e música são dos dois. Nesta mesma noite tinha uma argentina que morava com a gente, ela adorou a música e ficou cantando a noite inteira. Já foi um sucesso”, conta Aristides.

Um amigo de Geraldo Amaral foi convidado para mostrar músicas para Joana, e o convidou pra ir junto. O amigo cantou, mas Joanna não demonstrou interesse. Geraldo cantou Chama, Joanna escutou e disse para um assessor, é esta.  E assim foi como a cantora conheceu a música. Ela tem outra versão, de que ouviu num cassete, e já com o disco fechado, tirou uma faixa e incluiu Chama, que batizou o LP. Aristides conta que foi ao banco receber o dinheiro do adiantamento da gravação. Estava no caixa, e a música começou a tocar no som ambiente do banco. Ele se emocionou, obviamente: “Disse ao caixa que o dinheiro que veio receber era por causa daquela música que estava tocando. O caixa olhou pra mim,e disse ‘Ah, tá”.     

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