Carlos Marighella tem poema musicado por Tiganá Santana, com participação do BaianaSystem

Tiganá Santana é um dos mais importantes músicos contemporâneos da Bahia. Dos primeiros músicos da terra a se voltar para a África em busca de sua riqueza harmônica, afinal o continente é rico em instrumentos cordofones, e ritmos influentes como o highlife. Certamente por não seguir a linha dançante carnavalesca, seu trabalho é menos popular. Em seu novo single, Tiganá Santana, mesmo contando com a participação da badalada e atuante BaianaSystem, permanece coerente com sua estética musical. Canto Para Atabaque começa com levada de highlife, um gênero nascido em Gana e disseminado pela maioria dos países africanos.

Tiganá Santana musicou um poema do guerrilheiro Carlos Marighella (1911/1969), cuja neta, a atriz Maria Marighella, em 2019, apresentou a Tiganá, sugerindo que o musicasse. O título do poema: Canto Para Atabaque, que versa sobre as manifestações da cultura popular, do Brasil mestiço, do qual Marighella era um exemplo, filho de imigrante italiano com filha de escrava africana haussá. Tiganá Santana convidou o BaianaSystem e o percussionista sueco Sebastian Notini para criarem o arranjo da canção.

A pandemia atrapalhou os planos dos músicos, que pretendiam lançar Canto de Atabaque em 2020, mas foram obrigados a interromper o trabalho. Com a maneirada nos índices da covid-19, o projeto foi recomeçado em junho de 2021, e sua entrada nas plataformas digitais, nesse domingo, 5 de dezembro, coincide com o aniversário de 110 anos de nascimento de Carlos Marighella, um belo presente. Canto Para Atabaque tem duas versões, a original, finalizada inteiramente em Salvador, com muita percussão de candomblé (além da percussão de Sebastian Notini, um dos percussionista de destaque na Europa), programações de Sekobass. A segunda, versão aDUBada é assinada por Buguinha Dub, e foi feita no estúdio Mundo Novo, em Olinda.

O poema Canto de Atabaque, na íntegra

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

Ei Brasil!

Ei bumba meu-boi!

“Mansu, manseba,

traz a navalheta

pra fazer a barba

deste maganeta.”

Lá vem beberrão,

lá vem Bastião,

tocando bexiga

em tudo que é gente.

O engenheiro medindo,

empata-samba empatando,

cavalo-marinho

dançando, dançando.

O boi requebrando,

o boi ‘stá morrendo,

o boi levantando,

Ei Brasil-africano!

Minha avó era nega haussá,

ela veio foi da África,

num navio negreiro.

Meu pai veio foi da Itália,

operário imigrante.

O Brasil é mestiço,

mistura de índio, de negro, de branco.

Bum! Qui bum-rum! Qui bum-rum! Bum-bum!

Quem fez o Brasil

foi trabalho de negro,

de escravo, de escrava,

com banzo, sem banzo,

mas lá na senzala,

o filão do Brasil

veio de lá foi da África.

Ei bum!

Qui bum-rum!

Qui bum-rum!

Bum! Bumba!

Ei lu!

Qui lu-lu!

Qui lu-lu!

Lumumba!

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