Historinhas de discos históricos: Déjà Vu, CSNY

Nunca um título de um disco deu tanto trabalho para se produzir uma capa. O segundo álbum do Crosby, Stills, Nash, agora com Neil Young, ou CSNY, é o clássico Déjà Vu, expressão francesa que designa uma situação que lembra ou tem ligações com o passado. Os integrantes da banda queriam uma volta ao século 19, o mais próximo possível do real. A CSNY estava sendo considerada a sucessora dos Beatles, que todos sabiam que estava chegando ao fim. Crosby, Stills, Nash & Young, no início de janeiro fez a rota inversa a dos Beatles em 1964, quando invadiram os Estados Unidos e o planeta. Foi a Londres para um concerto triunfal no Royal Albert Hall, com direito a Paul McCartney na plateia.

McCartney, que andava testado com os outros Beatles, deve ter ficado ainda mais irritado com George Harrison. Em 1969, (ainda sem Neil Young), David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash foram à sede da Apple para mostrar sua música. Harrison, que estava com Peter Asher, ouviu e não gostou. Provavelmente, porque ele e Graham Nash tiveram uma treta três anos antes. The Hollies, a ex-banda de Nash, fez uma versão de If I Needed Someone, logo depois de lançada pelos Beatles, no álbum Rubber Soul. Um repórter perguntou o que George achou da versão, ele disse que não gostou. Graham Nash respondeu pelo grupo. Harrison deu o troco. Os Hollies, para ele  era uma banda cover (não exatamente com estas palavras). CS& N lançou o disco pela Atlantic, que vendeu, de saída, meio milhão de cópias.

A expectativa dos executivos da gravadora não poderia ser mais otimista. Déjà Vu recebera pedidos antecipados de dois milhões de álbuns. Antes  de lançado estava sendo divulgado nas revistas importantes, e jornais ainda alternativos, feito o Rolling Stone, como um evento. Por mais custosa que fosse, a verba da capa estava liberada. Stills queria que ela se assemelhasse a um livro antigo com capa de couro, ou um hinário. Crosby queria que aparentasse a uma foto centenária. Os fotógrafos Henry Diltz e Tom Gundelfinger foram os encarregados da empreitada. Gundelfinger alugou uma câmera do século 19 para fotografar a banda.

Trajados com roupas de época, cada um representando um personagem. David Crosby como um Buffalo Bill doidão, Neil Young um aristocrata do Sul, Stephen Stills um soldado, Graham Nash, um civil comum, Greg Reeves um pistoleiro negro, e Dallas Taylor um bandoleiro, estes dois últimos creditados na capa. O cachorro não estava no script. Entrou exatamente na última foto. A foto com a velha câmera tinha que ser nos conformes do passado. O grupo tinha que ficar imóvel durante mais ou menos dois minutos e meio para que a imagem se fixasse na chapa. Esta por sua vez precisava ser revelada imediatamente. A foto com a câmera centenária não ficou boa, falhou nos contrastes. Henry Diltz usou uma moderna, porém empregando métodos do passado. Mergulhou o negativo numa substância química e o deixou secando ao sol, como se fazia na época da Guerra da Secessão. A foto chegou o mais próximo do que era esperado.

A capa, dupla, foi produzida com papelão processado para aparentar couro, porém a foto não foi impressa com a capa, e sim colada uma a uma. Não existia ainda impressora capaz de fazer isto.  A empresa encarregada da tarefa deixou os empregados enlouquecidos. As capas preparadas em sete grandes gráficas, espalhadas pelo país. Foram produzidas centenas de milhares de fotos. Durante o exaustivo trabalho, várias fotos foram colocadas na capa ao contrario. As capas que não foram destruídas valem uma fortuna.

O próximo disco de Crosby, Stills, Nash & Young, intitulou-se apropriadamente Fourth Way Street, uma rua de quatro mãos. Cada um integrante tinha estilo e personalidades diferentes. Young mais do que todos. Suas composições são ele tocando com os outros três. Depois de gravar sozinho, perguntava se os colegas podiam colaborar botando vozes.  Ele não participou de duas faixas do álbum, Teach Your Children e Our House (ambas de Graham Nash). Logo Nash, um perfeccionista. Por não aprovar do acorde final do piano em Our House. Pediu que trouxessem um piano Steinway, de Los Angeles para regravar o sustenido que não saiu legal.

O disco foi concluído em janeiro de 1970, mas os quatro já não se aguentavam um aos outros. Crosby foi navegar num barco, que era sua paixão, Nash foi curtir a namorada Joni Mitchel, no Laurel Canion, Young saiu tocando com o Crazy Horse, e Stephen Stills foi para Londres, onde passou a conviver com a realeza pop inglesa.  Com ela  gravou um hoje pouco lembrado, e dos mais subestimados discos dos anos 70, embora tenha feito sucesso e vendido quase um milhão de cópias. Eric Clapton foi dos primeiros a gravar com Stills, depois veio Ringo Starr (a quem Stills ajudou a desenvolver, com George Harrison, uma canção chamada de You Gotta Pay Your Due, depois rebatizada de It Don’t Come Easy). Billy Preston, o quinto Beatles apareceu pelo estúdio e deu uma canja. Jimi Hendrix tocou numa das faixas. Aliás gravaram muita coisa, que não foi lançada. Os dois se tornaram companheiros da noite londrina. Stills pensava em morar na cidade.

Enquanto isso, Déjà Vu foi lançado correspondendo ao que se esperava do álbum. Vendeu horrores, as FMs tocavam o repertório inteiro. Ganhou o Grammy de Melhor Disco do Ano. Nenhum dos integrantes da banda compareceu à cerimônia de premiação para receber o troféu.

Um comentário em “Historinhas de discos históricos: Déjà Vu, CSNY

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  1. José Teles,

    Gostaria que o mestre escrevesse um texto versando sobre as capas de discos mais bizarras do mundo.

    Primeiro, internacional e depois nacional.

    Também gostaria que o mestre escrevesse uma matéria sobre Bezerra da Silva. Sua importância para a malandragem carioca na música e se a esposa dele, Regina de Oliveira, afastou os compositores leais a Bezerra e que contribuíram para alavancar a carreira do artista, afastou-o dos colegas compositores.

    Forte abraço do leitor e admirador

    Cícero Tavares

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