Memória da MPB resgatada por editores de sites e blogs, ou em dissertações acadêmicas

Em 2000,entrevistei Luiz “Boquinha” de França que, então com 89 anos (e prestes a completar 90). Ele foi bastante atuante na cultura pernambucana, desde o final dos anos 20, ainda alcançou a fase dos blocos carnavalescos, sabia de cor a história de cada um. Fez músicas para vários. Fazia frevos, emboladas, e depois forró. É dele o rojão Eu Vou pra Lua, lançado por Genival Lacerda, mas um sucesso nacional com Ary Lobo, do qual foi um dos principais fornecedores de músicas.

 Pois bem, essa entrevista rendeu mais do que a publicação no jornal, refrescando a memória dos pernambucanos (Boquinha também foi destaque no rádio nos anos 60). Uma estudante de jornalismo, cujo nome, perdão, esqueci, soube de Luiz Boquinha por essa a matéria, e fez o trabalho de conclusão do curso com um vídeo de Luiz Boquinha (que faleceu em 2008). Nesse vídeo estão, certamente, as últimas imagens do compositor (também cordelista) Luiz de França.

Os TCCs, trabalhos de conclusão de curso, estão suprindo esta deficiência, pela precariedade dos museus e imagem e Som, ou órgãos públicos afins. O Museu da Imagem e Som, de Pernambuco, segundo o Google está temporariamente fechado. O MIS carioca, já foi bastante atuante, tem um acervo de depoimentos riquíssimo, mas não digitalizado. Coloquei o nome “Capiba” no “Busca no MIS”. O resultado: “Nada encontrado”. No perfil do Facebook do MIS há trechos de depoimentos. Sites como o do Instituto Moreira Sales, Instituto Memória Musical Brasileira (Immub), ou Instituto Cultural Cravo Albin, ou a Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco são importantes, mas parcialmente. A Fonoteca da Fundaj, tem um grande acervo, mas não foi digitalizado.

Sou inscrito no site academia.edu, cujo acervo de dissertações, teses e mais papéis acadêmicos é imenso, e cobre os mais diversos temas. É farto em música em geral, e pernambucana  em particular. Tudo disponível para download (paga-se uma pequena quantia para se inscrever. Nem me lembro mais quanto). Muito trabalho sobre frevo e manguebeat, e forró, abordagens sobre os mais diversos aspectos.

Além dos trabalhos acadêmicos, há os de abnegados, que criam sites e blogs para escrever e entrevistar gente que faz música, como é o caso do RitmoMelodia (ritmomelodia.mus.br) do paraibano (de Campina Grande) Antonio Carlos da Fonseca Barbosa (na foto, reproduzida do site). Ele mora há 20 anos em São Paulo. O site existe desde 2001. Recentemente, Antonio Carlos publicou uma coletânea de entrevistas, com selo da Glostri Editora ( viabilizado pela aprovação num edital do primeiro Fomento do Forró da Prefeitura Municipal de São Paulo). É intitulado São Paulo É Forró do Gogó ao Mocotó (uma frase tomada emprestada o título de um disco do, igualmente paraibano, Jarbas Mariz).  Nessas duas décadas do site, Antonio Carlos já realizou 900 entrevistas, duas centenas com forrozeiros. O primeiro entrevistado para o site foi o mineiro Zé Geraldo (que estreou em LP, em 1970, como Zegê, na recifense Rozenblit, acompanhado pelos Silver Jets, o grupo do qual Reginaldo Rossi foi vocalista). Daquelas entrevistas que a ansiedade bota a perder. O gravador foi ligado, mas não registrou nada. Antonio Carlos teve que apelar para a memória.

Antonio Carlos mostra que não é Caruaru, mas São Paulo, a Capital do Forró. É Forró do Gogó ao Mocotó traz apenas, como o nome dá a pista, entrevistas com gente ligada ao gênero, do DJ Ivan Dias, do fundamental site Forró em Vinil (forroemvinil.com.br), ao citado Jarbas Mariz, passando por Fuba de Taperoá, Assis Ângelo, Falamansa. O livro é uma vitrine, como o título também indica, para artistas menos conhecidos no Nordeste, porém bastante atuantes em São Paulo e adjacências, como a mineira Fatel Barbosa, ou o paulista Luiz Wilson, Mano Véio e Mano Novo, Bicho de Pé, entre outros. A reunião de entrevistas acaba sendo outra história do forró.

No entanto foi uma edição de apenas 200 exemplares, distribuídos entre os 28  entrevistados que estão no livro, por bibliotecas de São Paulo, equipamentos do Sesc, e jornalistas: “Se depender do meu bolso não tenho. Enviei para a Edições Sesc e vou tentar o contato com a Editora 34. Mas se nada acontecer aí vejo a possibilidade de colocar a versão ebook”, esclarece Antonio Carlos, acrescentando que São Paulo É Forró do Gogó ao Mocotó é o primeiro de quatro volumes de entrevistas publicadas no RitmoMelodia. Os outros três: As Referências do Forró, Respeite meu fole, e Flores do Mandacaru, todos finalizados.

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