Forró é patrimônio cultural e imaterial. E agora?

O forró foi reconhecido, nessa quinta-feira, 9 de dezembro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil, e deve se tornar também de Pernambuco. Vários forrozeiros exultaram, foram ditas muitas palavras bonitas. Mas nenhum me esclareceu o que o forró ganha com este reconhecimento. Os produtores vão continuar a escalar sertanejos para os palcos dos principais arraiais juninos do Nordeste quando as festas de São João forem liberadas? As rádios vão tocar forró como tocam os citados sertanejos, ou a turma da fuleiragem? Vai se criar um paço do Forró, capacitado para transmitir às novas gerações os cânones do gênero, com aulas, livros sobre a história da música e, sobretudo, resgatar a discografia do forró (com pelo menos 90% fora de catálogo)?

Cito a didática, porque leio que a relatora do processo no conselho do Iphan, Maria Cecília Londres Fonseca, comenta uma pesquisa que aponta que a primeira menção da palavra forró na imprensa foi localizada num jornal amazonense (sem dizer qual) em 1914. Forró, até os anos 50, não o guarda-chuva sob o qual se abriga os vários ritmos estilizados por Luiz Gonzaga e Parceiros, mais autores que vieram depois dele, como o recifense Edgard Ferreira (1922/1995), que acrescentou o rojão ao coletivo (a partir de Forró em Limoeiro, gravado por Jackson do Pandeiro em 1953). Dominguinhos preferia, em lugar de forró, chamar o coletivo de baião.

O termo vem de forrobodó, importado de Portugal. Assim, como samba, choro, frevo, não designava um estilo ou gênero musical, mas um baile, uma festa, do povão. Forrobodó era empregado como gafieira, baile do poviléo desde, pelo menos, o século 19. No Jornal do Recife, em 1915, num interessante glossário sobre expressões populares, tem-se a definição: “Forrobodó s.m – Festança cuêra em um lugar arrojado, cujo elementos magníficos, se formam de pessoas altamente colocadas que fumam, bebem, conversam, dançam, divertem-se, cospem, pulam, berram, etc” atente-se que a definição é repleta de ironia.

O jornal Pequeno, em 1901, aplica “forrobodó” para achincalhar as sessões parlamentares: ” Congressalhadas –  Foi soleníssima a sessão comemorativa do último forrobodó do Congresso”. Em 1923, o Jornal Pequeno procura esclarecer: “Lá para o Sul chamam a essas festas da plebe de forrobodó, o que deu título a uma revista teatral bastante aplaudida. Entre nós dão o termo grosseiro de sovacada, deturpando até a palavra portuguesa de onde ele é derivado”

O Iphan precisa esclarecer que pisadinha, sofrência, trap fuleiragem, os muitos Cauãs, Cauim, Luãs, e Luims, não fazem forró. Sem entrar no mérito da qualidade, o que cantam é um gênero novo,  cujos empresários batizaram de forró, para ocupar o espaço dos autênticos criadores do gênero, que perdeu muito espaço pela força da grana que destrói coisas belas. Enfim, até onde o pomposo título patrimonial vai mudar a rota do forró?

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