Gangga Barreto e Rogerman tiram do ineditismo dez sambas de Erasto Vasconcelos

Erasto Vasconcelos, falecido em 2016 (três meses depois do seu irmão Naná Vasconcelos), já bem debilitado, pediu à amiga Gangga Barreto que gravasse um disco com sambas que deixaria inéditos. Percussionista, griot, cantor, compositor, Erasto tornou-se meio guru, meio mestre para uma geração  de jovens músicos olindenses. Não se concebia show da Eddie, no Recife ou Olinda, sem a presença de Erasto, um autor de idiossincrasias estéticas únicas e originais. Seus sambas são sempre dançáveis, exalam aromas de eras passadas.

Erasto contava que, quando criança, costumava subir no muro de uma gafieira em Sítio Novo, subúrbio de Olinda, para ver o salão, onde muitas vezes seu Pierre, o pai, e o irmão mais velho, Naná Vasconcelos, tocavam. O samba de Erasto Vasconcelos tem muito de gafieira, que já foi uma variante do gênero, em alta até meados dos anos 60. Praticamente todos os maestros que trabalhavam com música popular na época fizeram seus discos de gafieira. Incluindo o maestro Nelson Ferreira, que lançou, regendo a Orquestra Mocambo, um hoje raro, Frevo na Gafieira (1959).

Estes sambas, até então inéditos, estiveram no roteiro De um show que Erasto Vasconcelos montou com Gangga Barreto: “Em 2012, após sete anos de jejum dos palcos, Erasto aceitou uma ideia minha. Criamos o projeto Pão Ensopado com Leite de Coco. Erasto fez uma temporada de shows em Olinda e essa amizade cresceu. Em seguida, ele me propôs gravar os sambas. Guardei as músicas e o pedido. Chegou a hora”, conta Gangga, que cumpriu o desejo de Erasto, no disco Gangga Barreto e Rogerman Cantam Sambas de Erasto, lançado nesta sexta-feira, 10 de dezembro em CD e nas plataformas digitais.

 Embora lançado numa data redonda, aniversário de cinco anos de morte (Erasto faleceu em 27 de outubro de 2016), Rogerman ressalta que não se trata de um disco tributo: “Não é exatamente um tributo porque não estamos gravando músicas que já são conhecidas pelo público admirador de Erasto, como o clássico Maranguape, por exemplo. São músicas novas. São sambas. O que estamos fazendo é manter viva a criação artística de Erasto, um brilhante no que fez sempre”.

Mas é samba feito pelo molde de Erasto. Louvando as Nações tem forte tempero de ijexá, a religião de matriz africana faz-se presente em Samba de Umbanda. O trombone de vara está para o samba de gafieira como a guitarra para o rock. É um solo de Deco do Trombone que abre Poeta, um samba diferente, com perguntas e respostas, contando uma história de uma criança que vai bater pernas na rua. As dez faixas trazem temáticas variadas. O Samba de Umbanda, por exemplo, é muito diferente de Sargento, em que o autor destila fino humor. As músicas têm de comum entre si o talento de Erasto para a melodia cativante.

Projeto viabilizado pela aprovação em edital do Funcultura, foi também mais um que esbarrou na pandemia. Não fosse isso, seria realizado em 2019. Gangga e Rogerman (em foto de Mateus Ilário) somente conseguiram retomá-lo em janeiro de 2021 (terminaram em março), no Estúdio Fruta Pão, com produção de Jadson Bactéria, arranjos de Théo Coutinho, com mixagem de Homero, e masterização de Buguinha  Dub. Com Gangga Barreto e Rogerman está uma banda formada por Pablo Ferraz, Nino Silva, Nelson Brederode, Théo Coutinho e Deco do Trombone.   

OS DONOS DO DISCO

Gangga Barreto e Rogerman são figuras carimbadas da cena musical de Olinda. Ela é percussionista , há 21 anos, da banda de Lia de Itamaracá, e participou de diversas empreitadas, Circo Vivant, Banda Observatório, além de parcerias com DJ Dolores, Ciel Santos, a banda belga Think of One, e ainda toca carreira solo.

Rogerman foi um dos fundadores da banda Eddie, em 1994. Deixou o grupo no final da década e criou a Bonsucesso Samba Clube, que gravou em São Paulo pelo selo YBrasil, e chegou a fazer turnê européia. Solo, Rogerman tem três discos.

Erasto Vasconcelos começou a carreira em meados dos anos 60, mas só gravaria disco solo em 2005. Uma trajetória tão atípica quanto sua obra. Nos anos 70, ele foi um dos percussionistas mais requisitados do Rio, sobretudo depois que o irmão Naná Vasconcelos saiu do país para tocar na banda de Gato Barbieri. Erasto tocou com a turma do Clube da Esquina (morou com alguns dos integrantes num casarão em Santa Teresa), integrou o coletivo Nuvem Cigana, fez show solo com participações de Toninho Horta, Luiz Melodia, Mauricio Maestro, Márcio Montarroyos, entre outros. Ainda nos 70 mudou-se para Nova Iorque, onde morava o irmão. Lá tocou com Stan Getz, com o Stone Alliance (Don Alias, Steve Grossman e Thad Jones), montou uma escola de percussão no Village, integrou uma banda de que participava Vernon Reid (bem antes do Living Colour). No entanto, constantes  crises de depressão o fizeram voltar ao Brasil em 1981. Seu álbum Jornal da Palmeira é um clássico pernambucano.

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