Luiz Gonzaga fala de música, influência e parceria

Luiz Gonzaga foi resgatado do ostracismo, no final dos anos 60, pelos tropicalistas que não apenas o regravaram, como não se cansavam de ressaltar a importância de Gonzaga para a música brasileira, e a influência que exerceu sobre Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 1972, dois baianos José Carlos Capinam, e Jorge Salomão, principalmente estes dois, abriram as portas da Zona Sul pra Lua, até então cantor da Zona Norte e da Baixada Fluminense. A temporada Luiz Gonzaga Volta pra Curtir, no seleto Teatro Tereza Raquel, deu uma reviravolta na carreira do Rei do Baião.

Capinam conviveu bastante com seu Luiz nesta época, mantém consigo um acervo, com muitas imagens inéditas de Gonzagão. Extraiu dele a mais longa entrevista que Lua concedera até então (1972),publicada em duas edições do jornal Rolling Stone (a primeira edição nacional). Já tentou publicá-la em livro. Não encontrou editor. Mas o que foi publicado dessa conversa contém mais informações do que a maioria das biografias escritas sobre Luiz Gonzaga do Nascimento.

Frequentemente recorro a essa entrevista. Nesta segunda-feira, 13, aniversário de 109 anos de nascimento de seu Luiz, e também o Dia do Forró. Abaixo transcrições da entrevista. (a foto de Luiz Gonzaga é de Breno Laprovitera)

DESTINO

“Se não fosse este fole velho, aquela sanfona do velho que eu aprendi a tocar nela, eu tinha ficado por ali, possivelmente teria uma porção de filhos por ali, possivelmente tinha morrido, porque ali o homem não vive assim, 60, eu já estou com 60, né”

TERNO DE PÍFANO

Quando menino eu assistia todo o dia os tocadores, ali tocando pife, zabumba, caixa, e naquela hora em que entravam igreja tocando, pra beijar os pés do santo, então aquela zabumba, entrava dentro do coração, meu peito, era aquela vibração maravilhosa. Eu achava muito bonito. Aquilo era música matuta, cabocla, que ainda existe. Esta foi a grande influência que eu tive, tanto que depois eu copiei a zabumba autêntica lá do mato, e lancei aqui, e que até hoje é conhecida como instrumento do meu ritmo. Esta foi uma grande influência, e também as cantigas de novena, de noites de novenas cantadas pelas cantadeiras de lá, do povo”

ESTILO

“Tudo que eu ia tocar não dava certo, era tudo difícil pra mim, porque o acordeom precisava de uma técnica e eu não tinha. Só conseguia tocar do jeito lá do norte. Eu não conseguia imitar ninguém porque todo mundo tocava melhor do que eu. Então foi aí que descobri o meu próprio estilo sem saber que tava criando uma coisa nova”

INFLUÊNCIAS

“Eu tive influência de Ernesto Nazareth pra ser um tocador de choro, eu tive influência do jazz, porque eu consegui no baião, mesmo no choro, dar um certo balanço diferente na sanfona, porque eu toquei em orquestra, toquei em cassino, porque eu toquei em gafieira, porque eu toquei no rádio, porque eu toquei sob a direção de Radamés, toquei debaixo da direção do maestro Chiquinho, eu toquei com o maestro Fon-Fon, que foi um alagoano que era um fenômeno, era um dos maestros mais famosos daqui. Eu toquei com o maestro Severino Araújo, eu toquei de ouvido, e eu toco de ouvido até hoje. Então criei meu próprio estilo assim, um pedacinho daqui, pedacinho de acolá, pedacinho do jazz, pedacinho do regional (…)”

TRAJES

“Eu poderia criar ou o vaqueiro ou o cangaceiro. O vaqueiro eu não faria por causa do calor, e da inconveniência do peso da roupa, e a sanfona muito grande iria me atrapalhar. Então apelei pra Lampião, que eu era fã ardoroso de Lampião … então mandei buscar o primeiro chapéu de couro”

DANTAS VERSUS TEIXEIRA

Zé Dantas era um sertanejo muito inteligente, médico, sertanista danado, defensor do sertão, conhecedor profundo do sertão (…) Humberto estudou logo cedo em Fortaleza, e depois Rio de Janeiro e tal. Ficou muito mais finório. Ele não comia nem baião de dois (nem sabia), quando ele comeu um baião de dois lá em casa, saiu logo um baião na hora, Baião de Dois… Eu amei sinceramente os dois, mas tomei partido de Zé Dantas, ele começou a discordar de Humberto Teixeira, aqui na cidade grande… Zé Dantas Médico, Humberto Teixeira, bacharel, eu sanfoneiro analfabeto pra harmonizar os dois não dava, né? Então na hora da raiva eu sai com Zé Dantas pra outro lado”

RITMOS

o xamego, depois veio o forró, veio o xote, veio o xaxado, o baião, o xenhenhen, aboio, que o aboio existia como canto, sem palavras, então eu coloquei palavra, e dei um certo ritmo ao aboio, né, sanfonizei o aboio, teve a toada nordestina, que é esse tipo Asa Branca, que eu chamo toada de retirante

“Eu tirei da batida do bojo da viola, né – tem, tem, tem, essa batida sempre coro, aí botei o gonguê – toque,toque –toque, o triângulo, ting ling, ting ling, ting ling . Daí pra cima tudo cabe tudo. Cabe pandeiro, cabe o que quiser botar.

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