Bomba de Estrelas, o disco com que Jorge Mautner quase perde a fama de maldito, fez 40 anos em 2021

Não me lembro de matérias sobre o álbum Bomba de Estrelas, de Jorge Mautner, que neste 2021, completou 40 anos. Um disco marcante na carreira de Mautner. Até então ele pairava entre o folclórico e o maldito, ou o intelectual de poética nonsense, quase infantil, mas que citava Nietzsche ou Heidegger.  A trinca de títulos da sua discografia, até então, foi elogiada, mas pouco comprada, e mal divulgada pela Phillips/Polydor. O compositor se dava melhor. Emplacou nas paradas com Quero Ser Locomotiva (parceria com Nelson Jacobina), em 1972, na voz de Wanderléa, no álbum Maravilhosa, e, em 1974, com Maracatu Atômico, num compacto simples de Gilberto Gil.

Jorge Mautner, depois de cinco anos sem lançar disco, foi contratado pela WEA, que apostou todas as fichas num artista que integrava as hostes dos malditos da música brasileira. Investiu dois milhões de cruzeiros, para produzir o primeiro álbum do cantor com seu selo. Um quarto desse valor destinado à divulgação. Com direito a capa é assinada pelo artista plástico Glauco Rodrigues. Trabalhar com Jorge Mautner era sair do cartesiano. O título do disco ficou entre Panfleto da Nova Era (nome de um livro que lançou na época), Jardim do Éden (inspirada no livro A Vida Secreta das Plantas), Canções do Lado de Lá, mas acabou como Bomba de Estrelas: “Dei o nome de Bomba de Estrelas ao disco porque ele era uma bomba de exorcismo estelar. Você sabia que as estrelas emitem ondas sonoras? Era um disco contra a bomba no Rio Centro”. Esclareceu Mautner, em entrevista ao Jornal do Brasil.

  A jornalista Débora Dumar, que o entrevistou, apontou que a bomba no Rio Centro explodiu em 30 de abril de 1981. O disco foi gravado bem antes, no final de 1980. A explicação de Jorge Mautner: “Todo profeta antevê, e trata-se do disco de um profeta”.

A WEA aceitou que Mautner seguisse a tendência de rechear discos de participações especiais: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Robertinho do Recife, Zé Ramalho, Pepeu Gomes e Amelinha reforçam Bomba de Estrelas. Participações de alguns estendidas às parcerias. Namoro Astral e Tá na Cara, com Moraes Moreira, Encantador de Serpentes, com Robertinho do Recife, Bomba de Estrelas, com Zé Ramalho, e A Força Secreta Daquela Alegria, com Gilberto Gil, esta com uma inusitada fonte de inspiração, detalhada por Mautner:

“Eu fiz a letra depois que me comuniquei com uma samambaia às três da tarde na Bahia. Ela pediu pra ser regada, mandou uma mensagem que transcendia à ecologia e disse que as plantas e os discos voadores se aliam numa mensagem e que para se comunicarem, entram através da onda do violino. Era uma mensagem do carinho, da telepatia, do amor. E ela disse que escolhem os artistas porque eles podem convencer os seres humanos por falarem a mensagem do coração”.

A direção musical de Gilberto, o grande elenco, inclusive de músicos, não alavancou Bomba de Estrelas. A sonoridade do disco é bem o clichê da época, meio niu ueive, o pessoal ainda descobria as timbragens dos teclados, que soavam muito parecidos. A música de Jorge Mautner exigia o básico, acústico, o violino, o violão de Nelson Jacobina, um ou outro instrumento percussivos. Neste álbum tantos instrumentos encobrem suas peculiaridades. Uma das poucas faixas que funcionam bem é Encantador de Serpente, que tem participação de Robertinho do Recife.

Não seria desta vez. Jorge Mautner continuaria como um objeto não identificado na MPB, ou “maldito” como a imprensa insistia em rotular, algo com que ele não concordava, nem contribuía para ser aceito por um número maior de admiradores. Na citada entrevista ao JB, ele comenta o “maldito”:

“Ninguém gosta de ser maldito. É como chamar uma mulher de mulher-objeto, ou dizer que negro é bom para o samba, como o Stanislaw Ponte Preta fazia, com aquela história de Crioulo Doido, que ele achava ser elogio. Eu vivo só de show e, como maldito, fui boicotado por várias áreas, que até hoje colocam barreiras. Não fiz Funarte até hoje por causa do Hermínio Bello de Carvalho, e até hoje peço inscrição. E quando o Macalé propôs meu nome Ao Albino Pinheiro para o Seis e Meia a resposta dele foi: O Mautner, não”. Bomba de Estrelas teve relançamentos, um deles com Maracatu Atômico incluída como faixa bônus, por causa do impacto da versão feita pela Chico Science & Nação Zumbi (em Afrociberdelia, 1996). Versão que contribuiu para Jorge Mautner voltar a atrair a atenção da mídia, e ser cultuado por uma geração que o ignorava.

5 comentários em “Bomba de Estrelas, o disco com que Jorge Mautner quase perde a fama de maldito, fez 40 anos em 2021

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  1. Mautner e o Macalé são cultuados mas, salvo por uma ou outra música, não entendo a arte deles, acho que têm muita coisa ruim. O Paêbirú é outro, comprei logo que lançado, uma ou outra coisa mas não me encantou e gosto de músicas menos pop e estranhas.

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  2. Caro Teles, você tem razão: a gosto pra tudo.

    Eu, por exemplo, considero o João Gilberto, um chato, insuportável. Não encontro nada de revolucionário naquela batida tacanha de violão.

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      1. Como os gostos são democráticos e democráticas as escolhas, cada um fica na sua com respeito mútuo às opiniões alheias.

        Eu mesmo o considero o maior crítico musical do Brasil, com todos respeito aos outros, inclusive ao Paulo César de Araújo, que revirou Roberto Carlos pelo averso em Roberto Carlos em Detalhes. O biógrafo e melhor do que o biografado.

        Também adoro suas crônicas domingueiras, que, aliás, está fazendo falta. Da sua Aldeia o mestre espalha os acontecimentos cotidianos para o mundo dentro dum universo que só Pernambuco tem: O coco, a ciranda, o frevo, o maracatu, a dança de roda, e a fulerage.

        Gosto não se discute; porque há gosto pra tudo.

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