João Gilberto tem sua versão de Casa Portuguesa lançada em disco por um selo obscuro

Tão cioso de sua obra no Brasil, João Gilberto é um dos nomes da MPB mais pirateados lá fora. Produzidos nos mais diversos países, há dezenas de títulos de discos de João, com as capas mais bizarras que se possam conceber. A maioria é redundante, misturando faixas de discos de época diferentes. No meio de tanto joio, de vez em quando, encontra-se um pouco de trigo. O álbum João Gilberto Around the World é um raro trigo num campo repleto de joio. Tem selo Ipanema Record que, pelo código de área, é estabelecido na Flórida, com catálogo centrado em DJs e música eletrônica pra pular.

Não tenho ideia de como João Gilberto caiu nesta rede, mas Around the World tem uma capa decente, pelo menos esta edição, porque pirataria é feito passarinho (antigamente), é de quem pegar. Um selo pilantra lança um álbum, e acaba vitima da pilantragem de outro selo de idêntica estirpe. Este disco a que me refiro tem apenas dez faixas, oito bem manjadas, mas com ótima qualidade sonora, e duas raridades, nunca lançadas em disco por João. Uma delas éTreze de Ouro (Marino Pinto/Herivelto Martins), registro de um show em São Paulo, em 2008.

A segunda é a tal cereja do bolo, Casa Portuguesa (Artur Fonseca/Reinaldo Ferreira/Vasco Matos Sequeira), incluída por João Gilberto em um concerto que apresentou no Coliseu, de Lisboa, em 1984, para gáudio da plateia, que irrompeu em aplausos, quando o cantor lhes fez a surpresa, presenteando-os com sua versão de uma das canções portuguesas mais conhecidas no mundo. João tinha Esses rompantes. Na derradeira vez em que se apresentou no Recife, em 2000, na reinauguração do Teatro de Santa Isabel, além do Hino Nacional, ele interpretou Recife Cidade Lendária, de Capiba.

A escolha de Casa Portuguesa é interessante porque João reprocessa uma música de letra singela, e melodia muito simples, que muita gente acha que vem do folclore português. A canção ganha andamentos diferentes, modulações vocais, e a riqueza das harmonias no violão. Foi tão marcante o fato de João Gilberto cantar Casa Portuguesa, uma única vez, no palco, que qualquer texto sobre este clássico lusitano o cita, com a versão de Amália Rodrigues, que não foi a primeira a gravá-la mas foi responsável pela sua popularidade mundo afora.

Um fato curioso sobre este episódio. O cantor Pierre Aderne, radicado há anos em Portugal, fazia uma apresentação em 6 de julho de 2019, em Lisboa, no Coliseu, e incluiu Casa Portuguesa como uma homenagem a João Gilberto, interpretada com o mesmo arranjo que o cantor juazeirense empregou quando a cantou naquele mesmo palco 35 anos antes. Gravara inclusive um vídeo com a música, para ser mostrado depois do show. Quando adentravam o palco souberam da morte de João Gilberto, naquele dia.

ÁFRICA

Casa Portuguesa tem várias peculiaridades, inclusive como música engajada, por referir-se à pobreza em Portugal em pleno regime fascista de Salazar: “A alegria da pobreza/está nesta grande riqueza/de dar e ficar contente” A letra é pictórica, é como se descreve uma tela de um lar lusitano real: “Quatro paredes caiadas/um cheirinho à alecrim/um cacho de uvas doiradas/duas rosas num jardim/um São José de azulejo/mais o sol da primavera”. Mas a história da canção é pitoresca. Primeiro que a letra foi escrita em Moçambique, em Maputo (que então se chamava Lourenço Marques), a capital do país. Dois portugueses encontravam-se num hotel, Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira, e ocupavam o tempo escrevendo versos pornográficos. Um terceiro português, Artur Fonseca, que era maestro, lembrou à dupla que estavam numa casa portuguesa, precisavam maneirar no palavreado.

Um deles achou que “casa portuguesa” seria um bom título para uma canção. O maestro Fonseca assentiu dizendo “Com certeza”. Reinaldo e Vasco se apressaram a escrever os versos, e o maestro Artur Fonseca compôs a melodia. Pra inteirar as estranhezas, o hotel em que estavam tinha Bahia no nome, Girassol Bahia Hotel. (fonte: jornalggn.com, site do jornalista Luís Nassif)

Letra de Casa Portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém
Senta-se à mesa com a gente
Fica bem essa fraqueza fica bem
Que o povo nunca a desmente
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar e ficar contente

Quatro paredes caiadas
Um cheirinho à alecrim
Um cacho de uvas doiradas
Duas rosas num jardim
Um São José de azulejo
Mais o sol da primavera
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera
É uma casa portuguesa com certeza
É com certeza uma casa portuguesa

No conforto pobrezinho do meu lar
Há fartura de carinho
A cortina da janela e o luar
Mais o sol que bate nela
Basta pouco poucochinho pra alegrar
Uma existência singela
É só amor pão e vinho
E um caldo verde verdinho
A fumegar na tijela

Quatro paredes caiadas
Um cheirinho à alecrim
Um cacho de uvas doiradas
Duas rosas num jardim
Um São José de azulejo
Mais o sol da primavera
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera
É uma casa portuguesa com certeza
É com certeza uma casa portuguesa
É uma casa portuguesa com certeza
É com certeza uma casa portuguesa

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