Vincinius Cantuária e o americano Jesse Haris dividem um disco que é uma delicatessen pop

Dois inspirados autores de canções, craques na melodia, um americano, outro brasileiro, engatam parceria e lançam álbum juntos. O americano, Jesse Harris, o brasileiro, Vinicius Cantuária. O primeiro tem como referência da sua obra autoral a balada pop jazz You Don’t Know Why, sucesso internacional na voz de Norah Jones. Tem composições gravada também por Melody Gardot Solomon Burke e grande elenco.

Já Vinicius Cantuária é dono de uma extensa folha de prestação de serviços ao rock e MPB brasileiros. Em 1971 integrou O Terço, na década de 70, tocou com Jorge Mautner, Gilberto Gil, Caetano Veloso. Há 40 anos emplacou o primeiro sucesso nacional, com Lua e Estrela, faixa que impulsionou o álbum Outras Palavras (1981) de Caetano, a emplacar cem mil cópias vendidas

Muito atuante nos anos 80. Em 1991 formou O Tigres de Bengala, com Ritchie, Cláudio Zoli, Dadi e Mu Carvalho. O grupo lançou um CD em 1993. O álbum não decolou, e Cantuária continuaria sua carreira nos Estados Unidos, onde mora desde então, com livre circulação num meio em que circulam nomes como Arto Lindsay, Bill Frisell, David Byrne, Laurie Anderson ou Ryuichi Sakamoto.

Resenhas gringas de discos de Cantuária geralmente o ligam à bossa nova, o que é compreensível, tamanho o impacto que a BN causou mundo afora, mas uma meia verdade. A geração de Vinicius Cantuária recebeu mais informações do que as da bossa nova, teve forte influência de Beatles e Rolling Stones e afins, e do tropicalismo, que eclodiu quando ele estava com 17 anos.

Surpresa, o álbum que Vinicius Cantuária gravou com Jesse Harris, chega depois de uma década em que se conheceram, através de Dadi Carvalho. Ao longo desses anos, os dois têm feito parcerias, musicais, e de palco. A ideia do álbum surgiu pouco antes do novo corona vírus assolar o planeta. Harris continuou trabalhando em seu estúdio doméstico, enquanto Cantuária estava no Rio, impossibilitado de voltar à Nova Iorque. Assim que a pandemia amainou (pelo menos no Brasil), ele retornou, e começou imediatamente a trabalhar no disco com Harris. O bom relacionamento da dupla facilitou participações especiais. A cantora Melody Gardot, o guitarrista Bill Frisell, a cantora francesa Gabi Hartmann, entre outros.

O repertório foi criado individualmente, ou em parceria. Com algumas surpresas, feito Ó Maria, obscuro samba de Gilberto Gil, de 1974, para o álbum Cidade de Salvador, que só foi lançado em 1998, e ratifica a versatilidade de Harris e Cantuária, sobretudo deste, que traz Caetano Veloso para o álbum recorrendo a uma parceria de ambos que deu título ao disco Rio Negro, de 1991.  O álbum é aberto com um soft rock setentista interpretada a duas vozes, a melodia com a leveza que de antigas canções de Paul Simon.

  Jesse Harris é craque em canções, com música e letra bem encaixadinhas, envolvidas por arranjos engenhosos, a exemplo de Far Way. Noutras faixas a canção é suficientemente bem estruturada para dispensar arranjos mais complexos, caso de How Long, em que ele e Vinicius Cantuária formam um trio vocal com Melody Gardot (em cuja banda Harris já tocou). Ela canta também na faixa título. Ó Maria, tem participações de Bill Frisell e Gabi Hartmann, que interpreta o envolvente samba de Gil, em português, mas com delicioso sotaque francês.

Surpresa equilibra-se entre o indie e soft rock com a música brasileira ao estilo de Vinicius, meio bossa nova, meio rock, meio pop. Colibri Azul, com participação de Bill Frisell, lembra, na levada do violão, Crosby, Still & Nash. Harris insere harmonias jazzísticas em West Broadway Suffle, uma das melhores do disco, de onze faixas, fechado com o soft rock You, The Queen, mais de meio século desde sua estreia, James Taylor ainda exerce influência, neste caso, num autor de bastante talento. Um disco ideal para trilha do próximo domingo, certamente morgado, como quase sempre é um 1º de janeiro.

Surpresa está circulando nas plataformas de stream, mas teve lançamento em CD pela Sunnyside Records.

3 comentários em “Vincinius Cantuária e o americano Jesse Haris dividem um disco que é uma delicatessen pop

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  1. Show, Teles! Essa sua matéria trouxe uma grande lembrança pro The Brazilian Driver. O Vinícius Cantuária também é um grande craque da pelota, dentro das quatro linhas do viril esporte Bretão, o tal do futebol. Jogamos várias peladas, contra e a favor, no campo do Polytheama, de Chico Buarque.

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      1. Valeu a força de sempre, amigo! Estou mais perto do momento de me dedicar exclusivamente ao The Brazilian Driver nas Estradas da Música Brasileira!

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