Música pernambucana: Leda Baltar encantou os cariocas, em 1935, com frevos e maracatus

No carnaval de 1935, o Jazz Band Acadêmico viajou para apresentações no Rio, com um repertório de frevos e maracatus canção. Com o grupo viajaram o maestro Zuzinha (como arranjador), e a cantora Leda Baltar, muito popular no Recife, raramente citada na literatura musical pernambucana. Foi a primeira mulher a gravar frevos e maracatus, em 78 rotações, lançados em 1935. Uma viagem pioneira na divulgação do carnaval pernambucano no Sudeste, patrocinada pela Federação Carnavalesca de Pernambuco (então presidida pelo americano Joseph Pryor Fisch).

O Jazz  Band Acadêmico, dirigido por Pádua Valfrido, trazia luminares da música pernambucana, e nomes que fariam história em outras áreas, como o ucraniano Noel Nütels, mais tarde um dos mais importantes indigenistas do Brasil no século 20, que foi também apresentador e humorista dos shows. E ainda Theóphilo de Barros Filho, depois superintendente da Radio Jornal do Commercio, logo convidado para trabalhar no Sudeste no como diretor da Rádio e TV Tupi (ele é pai de Theo de Barros, autor da música de disparada, com Geraldo Vandré), e Fernando Lobo, compositor e jornalista, que logo se estabeleceria com  no Rio, onde foi bem sucedido (é pai do compositor Edu Lobo).

 Mas causou furor entre os cariocas a cantora Leda Baltar, jovem da alta sociedade recifense. Com domínio dos gêneros da música pernambucana, ela cantou e dançou o frevo e o maracatu. Com elogios generalizados. Ganhou página e meia na revista O Cruzeiros, e elogios derramados na imprensa carioca. No repertório de Leda Baltar, É de Tororó (maracatu canção de Ascenso Ferreira/Capiba), o frevo Eu Sou de Pernambuco (maestro Casaquinha), No Batuque (maracatu canção de Gaspar Moura), e Tenho Uma Coisa Para Lhe Dizer (frevo canção de Capiba), gravadas na RCA, a pedido da Federação Carnavalesca. Claro, muito jovem, Leda Baltar, aluna do curso de Magistério, viajou acompanhada pela mãe, senhora Carolina Baltar, e da irmã Zilah Baltar.

Ressaltando que em 1935, a federação apostou que o maracatu canção e o frevo iriam ser assimilados pelos cariocas. Foi recebido com entusiasmo. Entre os admiradores, o mastro Villa-Lobos e o compositor Braguinha. Mas a dinheirama que corria pelas emissoras cariocas, no carnaval, para que sambas e marchinhas fossem tocados, limitava a atuação dos pernambucanos a clubes chiques da capital do país. Leda Baltar poderia ter permanecido no Rio, e ser tão prestigiada quanto a recifense Stefana de Macedo, cantora de folklore do Nordeste, de grande sucesso e prestígio na capital do país desde meados dos anos 30. Stefana foi uma das primeira estrelas da era do disco e do rádio, de grande popularidade no Sudeste, mas ignorada em sua terra natal.

Leda Baltar contou ao jornal carioca A Noite que começou a cantar por acaso: “Foi por mera brincadeira. Há um grupo de médicos, no Recife, que tocam muito bem o violão. Certa vez pediram que eu cantasse alguma coisa, a fim de que me acompanhassem. Cantei um maracatu, dizem que agradei. E daí pra cá continuei cantando”. Reunião acontecida, em 1933, na casa do compositor e talentoso violonista Alfredo de Medeiros. E Leda não cantava apenas músicas regionais, e samba. Num programa musical no Santa Isabel, em 1934, ela canta canções americanas, entre as quais St.Louis Blues, de W.C Handy, lançada pela Prince’s Band em 1916, e popularizada por Louis Armstrong e Bessie Smith, em 1925. Certamente, Leda Baltar foi a pioneira e cantar blues no Brasil.

O Jornal do Commercio, do Rio, ficou carente de adjetivos, depois de uma definição de Leda Baltar, por um entusiasmado escriba, que a viu, com o Jazz Band Acadêmico, num baile de carnaval no Alhambra, promovido pela Sociedade de Cultura Artística: “Lindo conjunto, chefiado por uma linda figura de moça: Leda Baltar, hierática, estilizada, no seu vestido estampado e sandálias gregas – mulher arranha-céu – mulher de Hollywood, mulher ultra-moderna, Grata Garbo Nacional.

2 comentários em “Música pernambucana: Leda Baltar encantou os cariocas, em 1935, com frevos e maracatus

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  1. Excelente matéria, Teles.

    Traz-nos à tona fatos desconhecidos da história do frevo que eram desconhecidos por nós, pernambucanos. Leda Baltar e os cariocas de 1930.

    Parabéns pela história.

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