The Beatles 60 anos – Lonnie Donegan, a influência

 Os Beatles no caminho para o estrelato. Segunda matéria de uma série celebrando os 60 anos do primeiro disco do grupo na EMI. Agora abordando uma insuspeitada grande influência na música do quarteto, o escocês Lonnie Donogan, “O Rei do Skiffle”

O escocês Lonnie Donegan, principal nome do skiffle, onda musical inglesa de final dos 50, faleceu em 2002, aos 71 anos. Uma morte pouco divulgada, a não ser em seu país. Ele completaria 90 anos em 2022, uma data redonda que merecia maior atenção. Donegan, além de ser o primeiro cantor britânico a emplacar nas paradas americanas, teve também imensa influência na geração de artistas que colocou a música pop inglesa no mapa mundi. E mais. Ele mudou a música de um país conservador, onde crianças e adolescentes viam-se obrigados a escutar o mesmo repertório dos adultos, porque a BBC, única emissora do país, não incluía rock ‘n’ roll na sua programação.

Lonnie Donegan foi o artista (solo) que mais chegou às paradas inglesas, num total de 24 vezes. Ele pavimentou o caminho para os Beatles e quem mais veio a seguir. E ainda: ao contrário do que se possa imaginar, não foi Elvis Presley quem levou John, Paul, George e Ringo a decidirem ser músicos. Foi o esquecido Lonnie Donegan, a maior influência, confessa, dos quatro beatles. John Lennon, na época em que fundou The Quarrymen copiava Lonnie Donegan, nos mínimos detalhes, nas camisas quadriculadas, jeans muito justos, topete desarrumado, e na maneira de tocar o violão no palco, quase à altura do queixo, cantando com a boca colada do microfone (cacoete que permaneceria quando, por exemplo, tocava You’ve Got to Hide Your Love Away, com os Beatles).

Skiffle era uma mistura de folk, jazz blues tocada com violão, e instrumentos rudimentares, táboa de lavar roupa, contrabaixo feita de caixa de chá (à caixa era acoplado um braço rudimentar e cordas de baixo. Virava uma caixa de ressonância), copiados do blues rural americano dos anos 30. Muita energia e pouco refinamento, a fórmula básica do rock and roll era empregada por Lonnie Donegan, também pioneiro, no país, em tocar um repertório de folk e blues, algo que The Rolling Stones e outros grupos fariam nos anos 60.

 Seu maior sucesso, Rock Island Line, foi composto, em 1929 por Clarence Wilson como jingle de uma companhia de trens de carga, a Island Line. A canção popularizou-se, e tornou-se conhecida por uma gravação de Leadbelly, em 1937. Lonnie Donegan a Lançou em 1955, com seu grupo, ele no banjo, violão e vocal, Beryl Briden, na táboa de lavar, e Chris Barber, no baixo de caixa de madeira. A música chegou aos primeiros lugares, e levantou uma onda gigante de skiffle, que varreu a Inglaterra. Equivalente à que Elvis provocou nos Estados Unidos, na mesma época. Rod Davis, um dos músicos dos Quarrymen, conta sobre a influência de Donegan sobre os garotos de Liverpool: “Era como um Deus pra gente. Se ele chegou lá. A gente poderia chegar. John era muito inspirado por Lonnie Donegan. Um verdadeiro caso de adoração, pura e simples”.

 O jornalista Larry Kane, único a viajar com os Beatles em duas turnês americanas inteiras (as de 1964 e 65), foi o jornalista americano que mais entrevistou os integrantes do quarteto. Em 1964, numa entrevista com Paul McCartney, ele perguntou qual a maior influência nos Beatles. A resposta: “Lonnie Donegan, claro. Todos nós o escutávamos. Inspirador, claro. Nós todos queríamos ser Lonnie Donegan”. A ida de Donegan a Liverpool, para uma apresentação, em 5 de novembro de 1956, no Liverpool Empire Theater foi determinante para que um dia surgisse um grupo de música pop chamado Beatles. Paul, sem dinheiro pra comprar ingresso, ficou tentando assistir do lado de fora, com um bando de garotos. George conseguiu o dinheiro com o pai, e viu o show de pertinho. Por causa Donegan, Paul pediu que o pai lhe comprasse um violão, que custou 15 libras. George, de família com menos recursos, conseguiu três libras da mãe, e comprou um violão de segunda mão. No dia do show do ídolo em Liverpool, George não sossegou até descobrir em qual hotel Lonnie Donegan estava hospedado. Foi lá, bateu na porta. Insistiu até que o cantor a abrisse, e lhe pediu um autógrafo.

Os Quarrymen, embora um grupo amador adolescente, conseguiu se encaixar na programação do Cavern Club, onde se apresentaram em 7 de agosto de 1957. John disse ao dono que começaria com Don’t Be Cruel, recente sucesso de Elvis. O cara disse que não era permitido tocar rock and roll no Cavern Club (que entraria para a história exatamente por causa do rock and roll). Elvis, não. Lonnie Donegan,sim. Ele cantava folk, blues, não rock. Os Quarrymen tocaram o que aprenderam nos discos do Donegam.

Ironicamente, Lonnie Donegan saiu de cartaz em 1963, quando a juventude inglesa o trocou pelos garotos que ele influenciou: John, Paul, George e Ringo. O primeiro sucesso do quarteto de Liverpool, Love me Do (1962) é um skiffle, tocado com outros instrumentos. Em 1978, Paul McCartney convidou Lonnie Donegan a regravar seus principais hits. Puttin’ on the Style, o álbum de regravações, foi lançado em 1978, com participações de Ringo Starr (em duas faixas), Brian May, Elton John, Leo Sayer e Rory Gallagher.

Numa conversa, com o citado Larry Kane, John Lennon confessou a admiração por Lonnie Donegan: “Sim, Chuck Berry, The Everlys, Little Richard, eram importantes pra gente. Mas ninguém, nenhuma única pessoa foi mais importante pra nós do que Lonnie Donogan”,

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