Nara Leão, transgressora e destemida, completaria 80 anos nesta quarta-feira

”Chega de bossa nova. Chega disso, que não tem sentido. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo, e não uma coisa feita de um grupinho para um grupinho”, Nara Leão, em 1964, em entrevista à revista Fatos & Fotos.

Nara Lofego Leão completaria 80 anos nesta quarta-feira, 19 de janeiro, nasceu em Vitória do Espírito Santo, mas foi carioca desde o primeiro ano de vida, Sem pretender comparar alho com bugalhos, foi a figura mais transgressora da turma que se abrigou sob um guarda-chuva chamado MPB (que quase é denominado MMB, de música moderna brasileira), cujo marco inicial, segundo o crítico Sérgio Cabral (pai do desditado ex-governador do estado do Rio), é o LP Opinião de Nara (Phillips, 1964). Mas seriam este e o disco seguinte, Nara (Elenco, 1964). Em ambos os repertórios agregavam-se sambistas do morro, canções da velha guarda, e a bossa nova,  autores da sua geração influenciados pela BN.

Elis Regina (falecida no dia do aniversário de Nara, há 40 anos), que não admitia o rock ou iê-iê-iê (embora em seus primeiros discos, pela EMI, tenha sido moldada para competir com Celly Campello). Enquanto Nara não apenas namorou Jerry Adriani, ídolo da jovem guarda, como ousou revelar publicamente que considerava Roberto Carlos o melhor cantor do país.  Mas Elis, já em 1969, entendeu que qualquer maneira de som vale  à pena. Nara Leão depois de uma viagem aos Estados Unidos, onde assistiu a shows de Bob Dylan, e de Peter Seeger, e à revalorização os velhos blueseiros. Passou a entender que alguma coisa estava acontecendo no mundo, só os seus colegas de MPB, militantes do CPC da Une, não sabiam do que se tratava. Depois do show de Peter Seeger ela testemunhou uma manifestação contra a guerra do Vietnã. Do repertório de Seeger gravou Little Boxes (em versão dela), e Guatanamera (a letra é um poema do cubano Jose Martí). Nos seus próximos discos colocou na roda os velhos e novos sambistas da periferia. Em Nara Pede Passagem (Phillips, 1966) incluiu sambas de Jair da Pecadora, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Noel Rosa de Oliveira, Anescarzinho da Portela, Nelson Cavaquinho, com Baden Powell, Jards Macalé, Chico Buarque.

A decepção do relacionamento com Ronaldo Bôscoli não foi responsável pela defecção de Nara das hostes da bossa nova. Tampouco o namoro com Ruy Guerra teve a ver com uma guinada ao esquerdismo, em certos momentos, radical da cantora. Ela não levantava bandeiras de feminismo, mas sempre foi independente em opiniões e gostos. Mais a ver com sua formação familiar. Em sua casa não se comemorava datas magnas, Natal, Ano Novo. O pai não fazia questão de que as filhas se formassem. Contratava bons professores para lhes ensinar em casa.

Quando Nara  gravou o citado Nara, pela Elenco, selo de Aloysio de Oliveira, houve acusações de traidora da bossa nova por ter dado preferência a sambistas do morro. Os modernos a criticaram, os caretas aplaudiram, mesmo não gostando da voz da moça (um dos seus mais ferrenhos adversários foi o jornalista Sérgio Bittencourt). Apesar de João Gilberto, ainda exigiam vozes potentes. A de Nara era  um fio de voz, mas afinadíssima, agradável, e era dona de uma interpretação de personalidade, dicção perfeita. E mais, cresceu no meio de tantos bons violonistas, Carlos Lyra ou Roberto Menescal, que conhecia desde a adolescência, mas estudou violão com Patrício Teixeira, violonista da velha guarda, parceiro de João da Baiana, falecido em 1972 (nasceu em 1893).

Com um tanto de ingenuidade, e um muito de destemor, Nara Leão foi a única voz da MPB a se insurgir contra os militares, numa explosiva entrevista ao Diário de Notícias, do Rio, em 1966. O título: “Nara é de opinião: Este Exército Não Vale Nada”, em que defendeu a extinção do Exército, Nara Leão cutucava a fera com vara curtíssima, sem eufemismos nem metáforas: “Os militares podem, talvez, entender de canhões e metralhadoras, mas de política não entendem nada”.  De jornalista importantes ao poeta Carlos Drummond de Andrade, todo mundo procurou proteger Nara de uma retaliação de uma ala mais dura das forças armadas, que pedia sua punição. Foi poupada, mas depois do AI-5 soube que estava na mira das tropas. Ela e o marido, o cineasta Cacá Diegues se auto-exilaram na França.

Nara entrou e saiu de todas, tinha faro para descobrir autor talentoso. Há 50 anos ainda incomodava o regime, a ponto de pedirem a sua destituição da presidência do corpo de jurados do Festival Internacional da Canção de 1972. Ela saiu, mas exigindo ler um manifesto diante das câmeras da TV Globo, então em nada sutil apoio aos militares. Passaria uns poucos anos, sendo dona de casa, cuidando das crianças, para voltar em 1977, com Dominguinhos, no Projeto Pixinguinha. Os militares, pelo visto, não se valiam da retaliação, já que o projeto era Funarte, órgão do Ministério da Cultura. Vários artistas opositores ao governo fizeram o Pixinguinha, além de Nara. Gonzaguinha e Jards Macalé, por exemplo.

Ela sentiu os primeiros sintomas do câncer em 1979. Viveria mais dez anos. Por ironia do destino, morreu na  data oficial do golpe militar de 1964, 31 de março.

5 comentários em “Nara Leão, transgressora e destemida, completaria 80 anos nesta quarta-feira

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  1. Porra, Teles, me levas às lágrimas mais uma vez, hein?!
    Apenas ressalto e corrigo um dado histórico na história narrada sobre essa minha musa, parceira e amiga:
    Em 1977 o TBD produziu e realizou pra Nara, a pedido de Roberto Menescal, então diretor artístico da Polygram, gravadora que a tinha no seu cast nacional, o show intitulado Aqui Nesta Praça. Ela e Menescal já haviam convidado o Dominguinhos que também lançava seu primeiro álbum pela Polygram. Como eu estava com um cast grande na ocasião, não tinha condições de dirigir o show. Pra isso então convidei meus amigos e conterrâneos Tulio Feliciano, pra escrever o roteiro e dirigir a cena; e, Billy Aciolly, para fazer a cenografia, fotografar e desenhar o cartaz. Dominguinhos aceitou o convite, desde que fosse com seu trio pé de serra (zabumba, pandeiro e triângulo). Foi quando a Nara falou que assim precisaria também de um acompanhamento mais completo. Daí lembrei de um grupo de choro formado por jovens e adolescentes que haviam me procurado para produzi-los. Nessa, propus e a Nara aceitou na hora convidar uns tais “Carioquinhas”, com um pirralho de 14 tocando fenomenalmente o violão de sete cordas no grupo. E, pra ele entrar no teatro da Galeria, no Flamengo, após às 18hs, eu tive que assinar um documento como tutor de um tal Raphael Rabelo! Depois de uma temporada de um mês de sucesso de público e crítica, foi que me apareceu o Hermínio Belo de Carvalho, querendo levar o show pro Projeto Pixinguinha dirigido por ele pra Funarte. O resto, só no The Brazilian Driver nas Estradas da Música Brasileira!

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      1. Boa ideia Teles! Vou considerar essa possibilidade de gravar as memórias. Só preciso dar um chute nesse tal de perfeccionismo que me persegue desde muito jovem, e que foi sendo aprimorado nos estúdios de gravações da vida, mundo afora!

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