A cantora que nasceu no planeta Fome alimentou com boa música várias gerações de brasileiros

“Vou arrepiar, podem esperar”. Quem faz a afirmação é a cantora Elza Soares que se apresenta hoje, no Projeto Seis e Meia, no Teatro do Parque, com abertura de Mônica Feijó, com direito a uma segunda sessão às 21h. Ela adianta que não fará o show com o repertório de seu último disco, e DVD, Beba-me: “Este é um show especial, específico. Fiz em Natal, João Pessoa, Fortaleza, Mossoró, e as pessoas adoraram. canto Luis Melodia, Johnny Alf, e alguns clássicos, e alguns sucessos meus. Malandro, esta não pode faltar nunca. Se Acaso você chegasse? Talvez, depende, nem sempre canto”, diz Elza Soares, em entrevista por telefone.

Elza canta hoje acompanhada por um trio formado por Rômulo Pinto (teclados), Elcio da Costa (baixo), e Sérgio Luis (bateria): “Venho fazendo show com o trio. Parece que os cantores brasileiros se esqueceram de fazer trabalho com trio. As grandes cantoras de jazz costumavam cantar com trio. Amo banda, mas gosto muito de cantar acompanhada por bateria, baixo e teclado”. Neste show ela apresenta um repertório bem diferente, ao se falar em “clássicos”, Elza não quis se referir necessariamente a clássicos da MPB, mas a canções como Strange fruit (Lewis Allen/Sonny White), lançada por Billie Holiday, Imagination, sucesso de Chet Baker, e também a MPB de Camisa listrada (Ary Barroso) ou A carne (Marcelo Yuka/Seu Jorge)”

Trecho de uma matéria que escrevi sobre um show de Elza Soares, com abertura de Mônica Feijó, no projeto Seis e Meia, no Teatro do Parque. Aí já a Elza Soares engajada, ídolo da juventude, que agregava aos seus muitos sucessos, a maioria samba, canções como A Carne, ou Strange Fruit, canção que chocou os Estados Unidos, e que Billie Holiday tornou sua assinatura musical. Embora não no mesmo teor de seus discos lançados neste século, desde o início da carreira que Elza Soares flertou com o confronto. Comentava com Tom Zé sobre um zap que me mandou esclarecendo o modo paulista de falar a letra “r” quando soube da morte de Elza nesta tarde de quinta-feira. Ele contou que a viu na célebre apresentação em que Ary Barroso, ao vê-la subnutrida e mal vestida, perguntou de qual planeta ela vinha. A resposta: “Do planeta fome”. Elza participava do quadro de calouros do programa. Curioso é que morreu no mesmo dia em que morreu Mané Garrincha, com quem teve um dos romances mais badalados dos anos 60 no Brasil.

Seu primeiro LP, de 1960, tem título que atiça o confronto racial. Não deve ter causado polêmica porque se acreditava no mito da democracia racial brasileira. O título: A Bossa Negra. Um direta à bossa nova, branca, Zona Sul, e classe média pendendo pra alta. A exceção foi Alaíde Costa, que veio da Zona Norte. Um disco que fecha com Eu Quero É Sorongar, de Pedro “Sorongo” Santos e Dias da Cruz. Pedro Santos foi um percussionista, inventor de ritmos e instrumentos.

Uma das mais perfeitas vozes da música brasileira, cujos discos que entram em listas de mais e melhores são os mais recentes, experimentais e engajados. São bons, mas Ela merece ser escutada até nos seus discos fracos. Elza estourou já perto dos 30 anos. Quando colocou Se Acaso Você Chegasse (Lupícinio Rodrigues/Felisberto Martins), no topo das paradas do país inteiro, foi publicada uma notinha numa coluna de fofocas da Revista do Rádio: “Elza Soares, a grande revelação do rádio, é mãe de sete filhos”. No planeta fome casa-se e se é mãe muito cedo. Elza Soares se casou com 13 anos. Foi mãe aos 14. Dos sete filhos, três morreram antes que se tornasse a maior sambista do Brasil.

6 comentários em “A cantora que nasceu no planeta Fome alimentou com boa música várias gerações de brasileiros

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  1. Elza Soares se encantou sem perder a dignidade, a majestade! Cumpriu o seu desígnio nesse mundo material. Quando ao espiritual, tenho cá minhas dúvidas. Prefiro viver e amar o aqui e agora como ela o fez em toda sua vida.

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  2. Zé, querido: leio agora seu artigo que traz a notícia da morte de Elza Soares. Engraçado: na minha infância em Irará, o episódio do “venho do país da fome” foi vivido como um choque e muita surpresa. Não sei como isto pode me impressionar tanto sendo uma criança como eu era.
    Por isto, ao seu comentário sobre a morte da cantora, me ocorreu imediatamente a lembrança do país da fome, que infelizmente ainda vive esse tormento.
    Abraço
    Tom Zé

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