Caixa reúne o baú de raridades da Apple Records, na época em que todo mundo batia à porta da gravadora dos Beatles.

Imagine que você e seu amigo tivessem 18, 19 anos, passassem por uma rua e vislumbrassem um dos mais famosos músicos do mundo, parado diante de uma loja. Criariam coragem, e abordariam o músico, perguntando se gostaria de escutar umas canções que vocês fizeram. Ele pergunta se estão com uma fita gravada. Ao saber que não, convida vocês a entrarem na loja, apanha um gravador, lhes conduz a um local mais silencioso, liga o gravador e pede que cantem. Dias depois vocês recebem um bilhete do músico, que diz ter gostado das canções, e que vocês estariam logo com ele para, provavelmente fazer alguma coisa juntos – um disco. O bilhete estava assinado por Paul and the Mop Tops.

Foi exatamente o que aconteceu com Keith Drewett e Peter Dimond. Em meados de 1968, iam fazer um teste numa editora musical, quando viram Paul McCartney em frente à Apple Boutique. Depois do teste improvisado, passou algum tempo até receberem o bilhete acima citado. Dias depois receberam um contrato de gravação. Em 12 de março de 1968, Drew and Dy (o nome artístico que adotaram) estavam no estúdio da Apple, com Paul McCartney na produção, e no contrabaixo, e mais dois músicos de estúdio. McCartney lhes disse dias mais tarde que a gravação não ficou legal, por causa dos dois músicos (o baterista tinha tomado uns goles a mais). Garantiu que entraria em contato para mais um sessão de gravação. McCartney não voltou mais a contatar Drewett e Dimond.

Episódios semelhantes aconteceram muitas vezes no breve período em que os Beatles tinham intenção de implantar o socialismo pop, abrindo as portas da Apple Records para quem se aproximasse deles, ou de quem eles se aproximassem. Alguns foram muito sucedidos, Mary Hopkins, uma garota galesa de 16 anos, estourou mundo afora com Those Were The Days (Gene Haskin), a banda Badfingers foi igualmente um sucesso internacional, e a Grapefruit (nome sugerido por John Lennon. Grapefruit é o título de um livro de poemas de Yoko Ono) emplacou um hit na Inglaterra. Nesse meio estava também os americanos James Taylor, cujo álbum teve um grande hit, Carolina on my Mind. Porém a maioria, feito o grupo Mortimer quase chega lá, ou foram simplesmente descartados.

Depois de discos que não decolaram, e a Mortimer viajou de Nova Iorque para Londres, em 1968, com o intuito de ser contratado pela Apple. Fizeram um teste visto por George Harrison, que pediu a contratação da banda. Os garotos gravaram no Trident Studio, com tudo a que tinham direito. Até mais que isso. Paul McCartney lhes deu uma canção inédita da grife Lennon & McCartney, On Our Way Home. O álbum, produzido por Peter Asher, foi gravado com lançamento marcado para ser lançado para 1969. Mas no meio do caminho da Mortimer surgiu uma pedra chamada Allen Klein. O novo empresário dos Beatles chegou para mostrar serviço. Começou cortando despesas. Deu uma vassourada na Apple, despedindo funcionários e rescindindo contratos com artistas e bandas. A Mortimer entrou nesse passaralho. On Our Way Home seria lançada em 1970, pelo Beatles, em Let it Be, com o título Two of Us.

Contact, An Apple a Day, Sands, Andy Ellison, The Fire, Jackie Lomax , Second Hand, Sailing, Joker, Peter Cooper, George Alexander (irmão de Malcolm  Angus Young, do AC/DC) ou

Depois do longo intróito ao disco, ou melhor, discos. A caixa Good As Gold: Artefact of the Apple Era – 1967-1975 (Cherry Records), cinco discos, cem faixas, boa parte inédita, divididas por ano de gravação. O disco Lost Sessions and Singles (Sessões perdidas e compactos – 1968- 1969), um dos mais interessantes, sobretudo para completistas da obra dos Beatles. A faixa Lullaby, com o Grapefruit, foi produzida por John e Paul, enquanto todas as gravações do teste da Drew and tem McCartney no contrabaixo ou piano, e nos vocais. A Apple Records só foi oficialmente criada em 1968, mas antes disso os Beatles já incentivavam novas bandas e artistas solo a gravar. A Apple Recs, numa parceria com a EMI, existiu até 1975, quando o imbróglio jurídico entre os quatro beatles terminou.

Nem tudo o que se gravou na Apple foi lançado pelo prestigiado selo da maçã. O megahit Stuck in the Middle of You, do Stealers Wheels (que está nesta caixa) foi gravado na Apple, porém lançado pela A&M (a canção foi registrada na editora da Apple). Na primeira fase da Apple, John, Paul e George descobriam e produziam artistas. Um dos mais curiosos foi Brute Force (não uma banda, mas um cantor, chamado Stephen Friedland), autor de uma canção bem ao gosto de Lennon, que o produziu. O título é King of Fuh. O duplo sentido no pop inglês. No refrão, as repetições de King of Fuh, soam como “Fucking”. As emissoras do país avisaram de antemão que a música estava banida. A fábrica da EMI recusou-se a prensar o disco, que teve uma pequena tiragem às custas de Lennon. O disquinho está valendo uma fortuna.

A caixa ratifica como os integrantes dos Beatles eram workaholics. Mesmo envolvidos com vários projetos, participando das reuniões da Apple Incorporation, gravando discos do grupo, e circulando pela noite londrina, ainda arranjavam tempo para testar dezenas de bandas e artistas, a maioria, influenciadas por eles mesmos. Não apenas produziram várias, ainda participaram das gravações, tocando ou reforçando os vocais, e as vezes até divulgavam.

Good As Gold (Artefacts of the Apple Era – 1967- 1975 está disponível nos aplicativos de música.

4 comentários em “Caixa reúne o baú de raridades da Apple Records, na época em que todo mundo batia à porta da gravadora dos Beatles.

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  1. E os dois reminiscentes do quarteto de Liverpool fizeram uma caixa gordo, quando decidiram fechar a tampa da gravadora Apple definitivamente. Venderam a marca da maçã mordida pra Steve Jobs e cia por um milhão de dólares!

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    1. Rapaz, pelo que sei os beatles e espólios de Lennon e Harrison têm maioria acionárian na Apple Corporation. E rola um litigio com a Apple de Jobs por causa do logo, a maçã, que vem de uma tela de magritte, comprada por McCartney nos anos 60. Até anos recentes, quem presidia a Apple Records era Neil Spinall, da turma de Liverpool, que dirigia a van do grupo no começo dos anos 60.

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      1. Marminino, ao que parece, essa briga de cachorro grande perdura há décadas, então. Agora, o show da despedida do grupo, na cobertura do prédio em Londres, está acessável exclusivamente na Apple TV. No YouTube, nem pensar!

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