Woodstock ou Harlem Cultural Festival?

Tenho lido matérias em jornais gringos, alguns daqui,  contrapondo o festival de Woodstock, acontecido no interior do estado de Nova Iorque, ao Harlem Cultural Festival, no parque Mount Morris, no Harlem, na cidade de Nova Iorque, ambos acontecidos no verão de 1969. O festival do Harlem rolou entre junho e agosto. Com perdão do termo surrado, a narrativa, em boa parte dessas matérias e artigos, passa a ideia de que o festival de Woodstock recebeu toda as atenções, por ser um evento de brancos, enquanto o festival do Harlem, com artistas e plateia negras, ficou em segundo plano. Este segundo deu um público imenso, foi gratuito e promovido pela prefeitura de NYC.

O Harlem Cultural Festival só está sendo relembrado, e reconhecido, agora, por causa do documentário, Summer of Soul, dirigido por Ahmir “Questlove” Thompson (disponível no Globo Play), lançado em julho de 2021. Várias matérias na imprensa americana apelam para o maniqueísmo: um era de brancos nem aí para a política, outro de uma comunidade negra, engajada. Ora, Woodstock também foi um ato político espontâneo, fez mais pela liberdade do corpo do que centenas de debates , livros e manifestações de rua. E não apenas isso. Um dos grandes momentos do festival tem Country Joe and The Fish levando milhares de pessoas a cantar em coro Feel Like I’m Fixing to Die Rag, um dos hinos contra a guerra do Vietnã.  
Woodstock recebeu mais holofotes por causa dos que foram escalados para tocar no festival, a nata do rock da época: The Who, Creedence Clearwater Revival, Grateful Dead, Crosby, Stills, Nash & Young ou Joan Baez, entre outros superstars. Também pelos megaproblemas que a produção teve de enfrentar. O filme amacia, mas a situação chegou a um ponto tão crítico, sobretudo em higiene e saúde, que o governo do estado decretou situação de calamidade pública na área do festival, e isto repercutiu nacional e internacionalmente.

Basta comparar, em popularidade, a lista de artistas de ambos os festivais (sem intenções de medir talento, claro). O do Harlem teve, entre outros Abbey Lincoln, B.B king, Nina Simone e Stevie Wonder. As duas,  cantoras mais para festivais de jazz. Abbey não gravava desde 1961. Nina Simone só fez seu primeiro show na Europa em 1970. Claro, teve muito mais gente ao longo dos quase três meses de eventos.

Enfatizam Stevie Wonder nos panegíricos sobre o festival do Harlem. Nessa época ele estava em fase de transição, ainda não tinha se livrado totalmente do apelido de infância, Little Stevie Wonder, o menino prodígio. O Stevie Wonder que revolucionou a black music somente entraria em ação, em 1971, quando completou 21 anos, e renovou contrato com a Motown, nas condições que exigiu. Só partir de 1972 iniciaria uma série de álbuns, cada qual mais surpreendente e inovador do que o outro.
O rock aquelas alturas não fazia concessões à discriminação. O artista mais bem pago de Woodstock foi um negro,  Jimi Hendrix. O festival foi aberto por outro negro, Richie Havens. Uma das bandas mais badaladas do festival era formada por chicanos, negros e brancos, a Santana Band. E outra estrela foi um grupo de negros, Sly and The  Family Stone, numa das melhores atuações dos três dias de música, paz e amor (ma non tropo), aliás, o grupo se apresentou também no Harlem Cultural Festival.

O Harlem Soul Festival está sendo curtido, reconhecido agora, pelo mesmo vetor que tornou Woodstock uma lenda, e uma empreitada lucrativa: um documentário. O de Woodstock dirigido por Michael Radleigh, com montagem de Martin Scorsese, selecionou apenas os bons momentos, dourou a pílula, e assim mudou a rota de um projeto desastroso, por todos os ângulos que fosse olhado. O filme e os álbuns com a trilha cobriram todos os prejuízos, e deram um polpudo lucro aos investidores.
E, claro, não houve apenas dois festivais em 1969, o auge desse tipo de evento musical. Rolaram muitos pelos EUA, quase tudo só lembrado por quem esteve lá, apesar da participação de algumas das principais atrações do rock mundial. Cito abaixo, festivais acontecidos em 1969, a maioria caiu na obscuridade. Faltou-lhes um doc bem realizado:
Newport Festival – Jimi hendrix, Joe Cocker, Taj Mahal, Eric Burdon, Creedence Clearwater Revival etc.
Atlanta Pop Festival, julho, na Geórgia – Creedence Clearwater Revival, Canned Heat, John Rivers, Booker T and the MGs, Janis Joplin, Led Zeppelin etc etc (este foi um dos poucos que virou filme e álbum)

Seattle Pop Festival, julho – The Doors, Chuck Berry, Bo Diddley,Led Zeppelin, The Byrds, Tem Years After etc etc

Atlantic City Pop Festival – B.B King, Little Richard, Buddy Miles Express, Joni Mitchell, Procol Harum etc etc

New Orleans Pop Festival – Janis Joplin, Santana Band, The Who, Jefferson Airplane, T.Rex etc etc

Texas International Pop Festival – setembro – Chicago, Grund Funk Railroad, Led Zeppelin, B.B King, Herbbie Mann, Sly and the Family Stone etc etc

Second Annual Sky River Rock Festival – setembro, em Tenino, Washington – Steve Miller Band, Country Joe and the Fish, Big Mama Thornton, Quick Silver Messenger Service etc etc.

Claro, no final de 1969, rolou o festival de Altmont, aquele produzido pelos Rolling Stones, o lado sombrio de Woodstock, que fechou a tampa do caixão dos supostamente dourados anos 60. Mas Woodstock, ou Harlem Cultural Festival cada qual teve sua importância num tempo no final de uma décadas de revoluções nos diversos segmentos da sociedade. Em 1970 começaria uma reação do conservadorismo, mas aí são outros quinhentos.

A trilha sonora do doc Summer of Soul pode ser escutada nas plataformas de streaming.

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