Anitta e a obsessão de vencer na América

Me dá a impressão de que a maioria do pop atual é uma ilha da fantasia. Os artistas e a música circulam num universo exclusivo (com as obrigatórias inserções em programas de TV badalados) suas mídias sociais são abarrotadas de seguidores, recebem milhões de plays nas plataformas. Suas assessorias disseminam factoides aos montes, diariamente, que são amplamente divulgados por Jornais, rádios, TV, blogs o escambau. A mídia torna-se caixa de ressonância alimentando a popularidade do artista, a música ficando em segundo plano. Esses acabam muito famosos porque são muito famosos. Esta fama colossal rende-lhes participações, a peso em ouro, em campanhas publicitárias de grandes coporações. Chegam ao status de superstar pop sem que boa parte dos compatriotas os identifiquem pela imagem, ou saiba o que cantam.

Incursiono pouco por esta seara típica desde século, Vi o clipe da nova música de Anitta, achando que tivesse regravado Boys Don’t Cry, de The Cure. A coincidência está no título. É uma canção inédita, na linha retrô, com um plot de horror. Anitta é perseguida por zumbis, o que remete, pelo menos  pra mim, imediatamente, a Thriller, de Michael Jackson. A cada clipe ela procura o que é trend lá fora. Desta feita recorreu a um sueco produtor de hits pop (desde o ABBA, os suecos são bons em música grudenta, ou chiclete).

O pouco que vejo de Anitta me passa sempre a ausência de espontaneidade. Tudo é estudado para atingir um objetivo. Todo clipe procura atingir um objetivo, claro. Só que, no caso dela, isto é demasiadamente óbvio. São bem dirigidos, bem produzidos, mas me parecem engessados, visando o mercado americano. Um mercado onde nada se acontece forçando barra. Até hoje, venceram nos EUA brasileiros e brasileiras que interessaram aos americanos, não os que procuram despertar o interesse deles. Vou nem citar Carmem Miranda, porque ela venceu mais como atriz do que como cantora, teve todo um contexto geopolítico para sua promoção. Aliás, Carmem falava inglês com o maior sotaque carioca. Já a cantora brasileira mais bem sucedida nos Estados Unidos em todos os tempos, Astrud Gilberto, não mexeu nem o dedo mindinho pra agradar americano, e chegar ao topo do paradão da Billboard (e mundo afora), passando por cima dos Beatles. Garota de Ipanema, a mesma de que Anitta fez um remake, estourou sem campanha publicitária. Uma rádio tocou e agradou. Outra rádio tocou, e logo estava tocando coast to coast.

Artistas brasileiros do primeiro time sempre se apresentaram no exterior, mas sem a ideia de que explodiriam para o estrelato internacional. A Europa somente reconheceu a grandeza de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e Os Mutantes a partir da descoberta do Tropicalismo pelo americano David Byrne. Gil e Caetano fizeram apresentações na Europa durante o exílio. Mas nem a crítica, nem o público europeu estavam ainda preparados pra eles. A globalização contribuiu para a aceitação de outros sons pelos europeus (nos EUA ainda continua difícil)

Não adianta, repito, é forçar barra. Basta lembrar Ivete Sangalo, e aquele vexame no Madison Square Garden, em 2010. Deu até matéria no New York Times, mas para matar a curiosidade dos leitores. A maioria não tinha ideia de quem fosse a artista anunciada no imenso espaço de shows. Imagino que seja pela glória. Dinheiro, não deve ser. Aqui ganham muito mais. O sertanejo Gusttavo Lima sabe que não pode competir, de botas e chapéu de caubói, na terra da música country, nem nunca tentou. Limitado aos fãs compatriotas, ele é atualmente o artista da música que mais fatura neste país.

 Em tempo, conferi o revistão a mais recente Billboard, a bíblia musical do mercado americano. No que é está virando tendência pop, e no listão Hot 100, as cem canções mais tocadas nos EUA, não tem nenhum nome brasileiro.  Nessa terça-feira procurei no google o propagado estouro que teria sido a entrevista de Anitta, nessa segunda-feira, no talk show, de alta audiência, de Jimmy Fallon no canal NBC. Procurei no Google. A grande maioria das referências sobre a entrevista são de sites, blogs, jornais, revistas, brasileiras, em português, claro. De nome importante da imprenssa lá de fora, apenas o inglês New Musical Express, que deu uma nota, sem o ufanismo dos escribas nacionais, obviamente.

Um comentário em “Anitta e a obsessão de vencer na América

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  1. Quem nasceu limitada, tem de aceitar o limite do talento.

    Se não houvesse sucumbido tragicamente ia conseguir conquistar o mercado americano eram os Mamonas Assassinas, por serem autênticos, originais e geniais.

    Anita é um zero à esquerda musicalmente cantando. A única coisa que sabe fazer com um certo quê de criatividade é levantar aquele rabo esqueleto pra cima, em posição da jia, e mandar pintar uma tatuagem em forma de pulseira.

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